quinta-feira, 30 de junho de 2011

Balaiada Hightech - IX

Manchetes que nunca vamos ler

José Antônio Silva



1. Celebridade confessa: "Gente, eu devo tudo aos paparazzi"


2. Dr. Pitanguy: "Me aposentei porque já não aguentava mais repuxar e costurar tanta pelanca"


3. Comandante dos Bombeiros admite: “Quero ver o circo pegar fogo!”


4. Industrial reconhece: “Sonego, faço cartel e superfaturo. Ainda bem que a mídia só denuncia os políticos”


5. Atriz global desabafa: “Este papel que o Maneco escreveu para mim é uma bosta!”


6. Jogador de futebol: “Saio correndo do estádio para pegar uma retrospectiva do Bergman ou do Kiarostami"

7. Empreiteiro: “Só concluo obra depois de três reajustes de preço”


8. Escritor: “Sou melhor que o Saramago, mas os críticos são cegos”


9. Deputado esclarece: “Pessoal, este mandato é a minha chance de tirar o pé do barro”

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Política

Tarso Genro e a direita atrasada

“Uma parte da direita, no Brasil e no RS, ainda mantém uma visão meio burra e atrasada: acham que governantes de esquerda afastam o empresariado. É o contrário: quem tem credibilidade para falar é quem tem condições de manter um diálogo social ampliado, com inclusão social. Isso é que deu prestígio ao Lula e dá prestígio ao nosso governo.

Empresário não quer saber se governo é de direita ou esquerda: querem é que haja estabilidade social e para os contratos. O importante para a população é se inserir na sociedade de mercado, mas levando consigo os direitos conquistados”. Tarso Genro, em Lisboa, num balanço de sua viagem internacional ao repórter Guilherme Gomes, para a Rádio e TV Piratini.


(José Antônio Silva, pela transcrição)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Convidado especial

Vida offshore

João César Simch da Silva


Flap, flap, flap, o helicóptero decola do continente rumo à plataforma de exploração de petróleo. Duas turbinas, 12 passageiros, 250m de altitude, 220 km por hora. Após uma hora de vôo, em média, chega-se à sonda, que é como se denomina a plataforma de perfuração de poços de petróleo no jargão técnico. Após uma preleção de segurança, cada um se encaminha para seu camarote, para se instalar, trocar de roupa e iniciar o trabalho. Essas sondas trabalham em média com 120 pessoas a bordo, 24h por dia. Cada trabalhador tem um back (backup), um colega com o qual divide o trabalho diário, em turnos de 12 horas. No caso dos técnicos de nível superior da Petrobras (BR), geólogos, geofísicos e engenheiros, trabalha-se na exploração em sondas estrangeiras, contratadas pela Petrobras, com turmas de trabalhadores brasileiros.

Confinamento
Para os técnicos da empresa, os camarotes em geral são bons, a comida é boa e há uma academia de ginástica bem equipada para se exercitar. Pode-se também caminhar ao ar livre no helideck, espaço destinado ao pouso e decolagem dos helicópteros. Passa-se a maior parte do tempo confinado, seja no casario onde ficam os camarotes, refeitório e escritórios, ou nas unidades de perfilagem e acompanhamento da perfuração, espécies de containeres distribuídas na área externa da plataforma. É uma vida estressante que não é recomendada a ninguém: além de passar 14 dias longe da família e da civilização, passa-se confinado este tempo com pessoas com as quais pode não se ter nenhuma afinidade ou simpatia, e mesmo assim ter que conviver e compartilhar espaços e atividades todos os dias.

Com o trabalho continuado ao longo dos anos, chega-se ao absurdo de conviver mais tempo com essas pessoas estranhas do que com seus próprios entes queridos! Mesmo porque em casa não se passa 24 horas por dia com a mulher e os filhos, que trabalham, estudam, enfim têm suas atividades particulares. A única vantagem verdadeira deste tipo de trabalho são as folgas. Na função de geólogo de acompanhamento de poços exploratórios (well site geologist) na Petrobras, por exemplo, após 14 dias consecutivos embarcado, tem-se o direito a 21 dias de folga. Então, pode-se gozar um período de merecido descanso, em casa, curtindo a família e exercitando qualquer ócio, de preferência criativo. Mas não se iluda, trata-se de uma espécie de pacto com o diabo: ganha-se relativamente bem, tem-se direito às folgas, mas termina por se acostumar com essa rotina. Então não se consegue mais mudar e voltar para uma rotina normal, de sair para trabalhar de manhã e voltar só à noite para casa.

Passagem do tempo
Outra coisa é a passagem do tempo. Passa-se a contar o tempo em quinzenas, e nessa rotina parece que o tempo passa mais rápido, e junto com esse tempo sua vida vai passando junto. Além disso, os riscos envolvidos são elevados. Primeiro, o trabalho é feito continuamente sobre muita pressão. Afinal, um poço exploratório no pré-sal, por exemplo, custa na faixa de U$ 100 milhões, tornando a cobrança sobre o trabalho dos técnicos muito grande. Somando-se aos perigos inerentes à exploração de petróleo em alto-mar, como erupções e possíveis explosões do poço (blowout), desestabilização da plataforma, do risco dos vôos de helicóptero, há o risco de exposição às doenças e aos problemas que afetam a maioria dos petroleiros.

Entre as diversas doenças, pode-se citar, por exemplo, doenças alérgicas, funcionais, psicológicas, da coluna, ganho de peso, alcoolismo e etc. Qualquer moléstia que porventura se adquira, gripe, infecções e etc., desenvolve-se muito rapidamente quando se está embarcado, porque há uma queda no sistema imunológico do indivíduo, resultante de uma série de fatores: o trabalho sob stress diminui a imunidade; os alimentos são todos congelados e não possuem a quantidade integral de nutrientes; a qualidade do repouso é inferior ao seu repouso em casa, piorando quando se trabalha no turno da noite; fica-se muito pouco tempo exposto ao sol, pois se trabalha confinado; o ambiente confinado é muito seco e o sistema de ventilação não é limpo adequada e regularmente, contribuindo para a presença de pó, ácaros e etc.

Come-se muito também quando se está embarcado. Afinal é a única alegria que se tem! A comida é farta e em geral muito boa. Na tentativa de minimizar esses fatores negativos, tenta-se comer mais frutas e verduras, consumir vitaminas, caminhar e exercitar-se ao ar livre quando possível, beber bastante água, dormir cedo e etc.

Vida social
Somando-se aos problemas citados, a vida social de quem trabalha embarcado vai pras cucuias. Não existe domingo, feriadão, aniversário dos filhos, da esposa, de casamento, carnaval, páscoa, natal, ano-novo e etc.! Se você é escalado para o trabalho, torna-se necessária sua presença, não importando que data do ano seja. Um suporte familiar equilibrado é tudo nessa vida! Mas nem sempre isso é possível. O reflexo disso é outro problema muito comum que aflige o embarcado: a separação conjugal precoce.

No caso dos geólogos, é pior ainda: não têm escala de trabalho definida, embarcando apenas na fase de aquisição dos dados geológicos do poço, para a qual não há previsibilidade certa. E quando a atividade de exploração está em alta, como ocorre atualmente, as folgas se reduzem a apenas 10 dias em média! O petroleiro é antes de tudo um forte!

O melhor dia
Finalmente, o melhor dia do trabalho embarcado é o dia do desembarque! Quando se desce no aeroporto após uma quinzena de trabalho, sente-se com se estivesse tirando um enorme fardo de cima dos ombros. A certeza do dever cumprido conforta particularmente, mas o alívio só é completo mesmo quando se chega em casa.

Verdadeiramente não é fácil. Mas alguém tem que fazer o serviço pesado, não é mesmo?

Cultura

Academia Brasileira de Letras de Câmbio

José Antônio Silva

Academia Brasileira de Letras de Câmbio. De câmbio de influência, de câmbio de prestígio – desta vez remetendo nada menos que às Organizações Globo (que, aliás, anos antes já havia infiltrado na “imortalidade” acadêmica o seu papai fundador, Roberto Marinho).

Agora foi a vez do comentarista político e de assuntos gerais do Globo, Merval Pereira, ocupando a cadeira ocupada até recentemente pelo romancista Moacyr Scliar. Verdade que é questionável até mesmo o desejo de fazer parte do mausoléu da ABL, com seu fardão e espadinha, com seu chazinho das cinco e rapapés.

Mas, já que existe – e foi fundada pelo melhor de todos os escribas nacionais, Machado de Assis – que ao menos sentassem em suas 40 cadeiras os escritores brasileiros.

Qual o quê! – como diria (ou não) Machado. Ivo Pitanguy, Marco Maciel, Eduardo Portella, Cândido Mendes e outros ilustres cidadãos de diferentes áreas lá estão, com suas nádegas imortalizadas nas poltronas da ABL. Ah, sim, dirão vocês: “Esqueceu de citar o Sarney!”.

Nã, nã, não. Esqueci não. Caso é que Sarney – bem ou mal – tem vários livros de prosa e verso publicados, incluindo o inesquecível “Marimbondos de Fogo”. Se suas picadas têm alguma qualidade literária ou não, me abstenho de julgar, pois não os li. Só ao escrever e lançar obras na área de literatura, porém, já ganha pontos em relação ao cirurgião plástico (por falar em “pontos”...) Pitanguy ou ao político radicalmente vertical Maciel.

Pior é a desfaçatez midiática e da maioria dos acadêmicos, que por via das dúvidas preferiu votar no jornalista global em detrimento de um escritor de verdade e de méritos inquestionáveis, como Antônio Torres. Autor de 17 livros, como os já clássicos “Um cão uivando para a lua”, “Os homens dos pés redondos” ou o recente “Meu querido canibal”, por ironia do destino em 2000 recebeu nada menos que o Prêmio Machado da Assis. Sabem de quem, né? Sim, dela mesma, a velha ABL.

Quintana, um dos grandes da poesia brasileira, sofreu por não ter jamais sido escolhido para a Academia. Não devia: embora abrigue alguns autores de talento acima de dúvidas, como João Ubaldo Ribeiro ou Lígia Fagundes Telles, a Academia vem se imortalizando como uma vitrine para egos poderosos de variados setores.

E mais. Acho até que está havendo um favorecimento da Rede Globo. SBT e Record também devem lutar para colocar lá seus próprios colunistas – ou pelo menos um apresentador.

Ser escritor, ao que parece, hoje em dia até depõe contra.