sexta-feira, 20 de maio de 2011

Mundo

Nazismo fashion

José Antônio Silva


Primeiro foi John Gagliano, que em explosão fashion de ira, num café parisiense, alfinetou mulheres supostamente judias e elogiou Hitler. Agora foi o cineasta Lars Von Triers, que em Cannes – também na França – fez sua frase: “Eu gostaria de ser judeu, mas na verdade eu era um nazista”. Também foi agradável com o ditador nazista. “Eu compreendo Hitler. Acho que ele fez algumas coisas erradas, sim, com certeza, mas eu consigo vê-lo sentado em seu bunker, afinal”. Depois do vendaval que suas palavras provocaram e possivelmente da ressaca (seja lá do que for), o dinamarquês Triers se desculpou: “Não sou anti-semita ou racista de qualquer maneira, e muito menos nazista”.


OK, ok. Mas vale lembrar aquele milenar dito romano: “In vino veritas”. Sob o efeito do vinho, a verdade aparece. Esta coincidência de várias personalidades, simpaticamente, “compreenderem” Hitler, mais de 60 anos depois do fim da Segunda Guerra, mostra que no mínimo a memória humana é de fato muito curta. E longe dos horrores frente aos nossos olhos, é mais fácil relativizar tudo, sob a névoa das versões.


Mais incômodo ainda é perceber que também à esquerda, volta e meia o nazismo é lembrado como um castigo justo (antecipado?) aos seguidores de Abraão, pelo que fazem aos palestinos.


Ora, em primeiro lugar é necessário lembrar – lembrar bem - que também foram para os campos de concentração, para as câmaras de gás e para os muros de fuzilamento sumário dos nazistas, milhões de comunistas, homossexuais (te liga, Gagliano), ciganos e outros, além dos judeus.


Segundo, a política expansionista e cruel de Israel deve ser condenada de todas as maneiras. Enquanto negociam com líderes palestinos - para os spots e as câmeras de TV, sob as benesses da ONU, dos EUA, dos países europeus, etc. - prosseguem invadindo casas e terras dos camponeses árabes da região, construindo assentamentos e matando um povo há séculos estabelecido naquelas terras pedregosas. OLP, Hammas, ANP e outros grupos palestinos – cada qual a seu modo – vêm procurando enfrentar de um jeito ou de outro, inclusive com o terrorismo de bombas contra civis israelenses, o imensamente maior poderio econômico, militar e financeiro dos sionistas. Questão com nuances e erros de parte a parte, mas que de modo algum pode justificar a política neocolonialista de Israel.


Porém, ai porém... Daí a justificar, ou mostrar simpatia, que seja, por Hitler, vai um oceano de distância. O racista Hitler foi possivelmente o mais cruel e ensandecido tirano dos tempos modernos – um ícone de até onde o Mal pode ir. E passou à História por ter criado um meio científico para eliminar multidões de seres humanos que ele considerava inferiores, para promover genocídios em ritmo industrial.


Simpatia por Hitler? Ignorância histórica, confusão política. Ou então, reconheçamos: há mais nazistas - pop ou não - por aí, disfarçados de gente como a gente, do que supõe a nossa vã filosofia.

7 comentários:

Lau Siqueira disse...

Com certeza, Zé. Há muita atitude nazista em segmentos que se apresentam como alternativos. Aqui em João Pessoa, recentemente, nos deparamos com um bando de roqueiros nazi, pode? Claro que não pode. Foram rechaçados, ainda bem.

Arthur Danton disse...

Meu bom José:
Expuseste a questão com clareza irretocável... Mas o que é que tu me diz pra mim da última do Obama: defendeu um Estado palestino nas fronteiras de 1967! O Netanyahu já chiou... Mas um Estado desmilitarizado, claro, que o Obama tem peito, sim, mas tudo tem limite, né? Ora, onde é que já se viu???? um Estado palestino legítimo, com todas as prerrogativas que pressupõem esta condição, como o direito de se defender? Não, aí já é demais...
abs

José Antônio Silva disse...

Ainda bem, Lau.
Estado palestino legítimo e armado é demais até pro Obama, Arthur...
Abraços, amigos

Anônimo disse...

Zé Antonio, que diacho é isso de "perceber que também à esquerda, volta e meia o nazismo é lembrado como um castigo justo"??
Tá certo que a tímida e silenciosa "esquerda brasileira" pouco ou nada tem de esquerda, mas daí a manifestar simpatia pelo nazismo...!? Nem neoliberal se atreve.
Mania de inventar crítica à (suposta) esquerda para poder se sentir coragem de falar mal da direita...
Coisa feia, sô. Tome tino!
(Bj, Lilita)

José Antônio Silva disse...

Minha cara Lilita, volta e meia alguém de esquerda, ao se referir ao conflito palestino-israelense -e ao que Israel impõe aos árabes locais - faz algum comentário do gênero que descrevi ali.Não publicamente, claro, mas faz sim.

Quanto a direita, vivo falando mal dela, merecidamente.
abraço do amigo
Zé Antônio

Maria Lucia disse...

E volta e meia alguém de esquerda pede o extermínio da direita!
Tens razão, Zé! beijo

Arthur Danton disse...

Quanto ao ethos da esquerda, uma coisa não dá pra negar: o ressentimento. O jornalista M. tromba com um ícone da esquerda... Dali a meio século a gente vai ver alguém da esquerda espumando de raiva só de ouvir o nome de M. Esse é só um exemplo...
Tou certo ou não tou?????????
abs