segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mundo

Obama nas profundezas


José Antônio Silva



É de se imaginar os seals sujos de sangue, acompanhados de agentes da CIA de terno e impenetráveis óculos negros na madrugada, participando – respeitosamente, claro - de uma cerimônia fúnebre muçulmana, envolvendo o corpo destroçado à bala, por eles mesmos, pouco antes. A cena cinematográfica pode se passar num hangar fortemente protegido, no Afganistão ou no próprio Paquistão. Corta para o embarque rápido e nervoso em um helicóptero militar, já com as hélices girando, que decola rumo ao Oceano Índico. Antes do nascer do sol no Oriente, o cadáver de Osama Bin Laden desce às profundezas eternamente molhadas de seu inferno, junto com verdades e informações inconvenientes.

Obama, por sua vez, está no Olimpo da popularidade e da glória. As câmeras, agora de TV, o pegam decidido e durão – ele mostra aos falcões republicanos que sabe tomar decisões mortais. Claro, isso não ajuda muito à justificar o Prêmio Nobel da Paz preventivo com que lhe agraciaram, num misto de vassalagem e alívio, depois dos anos Bush. Mas pode garantir a reeleição.

Normas democráticas

Já são claros os motivos pelos quais preferiram assassinar Bin Laden, em vez de prendê-lo e julgá-lo, conforme as regras democráticas e civilizadas que os próprios Estados Unidos insistem em brandir, quando precisam justificar suas intervenções armadas em todos os cantos do mundo. E como utilizaram, no caso de Sadam Hussein. Claro que o líder iraquiano (que, aliás, não possuía as “armas de destruição em massa” que serviram de pretexto para a invasão americana) tinha menos a revelar sobre as manobras secretas dos próprios EUA.

Já o barbudo Bin Laden – além de ter atingido o coração e o orgulho dos States, com crueldade e eficiência máximas e inéditas – era cria dos próprios yankees. Ele e seus fedayin (guerreiros islâmicos) foram armados e treinados pelos EUA para combater os russos no Afganistão, na década de 80, na polarização mundial com a União Soviética, que ainda existia à época. Portanto, tratou-se de queimar um “arquivo” que ainda poderia fazer muitos estragos nas torres da hipocrisia norte-americana.

Consciência do mundo

Não que o saudita milionário Bin Laden não merecesse pagar pelos seus crimes impiedosos e fanatizados, mas... o que houve com o discurso do julgamento justo e imparcial, com as regras democráticas? Até os carrascos nazistas da Segunda Guerra foram julgados (em Nuremberg). O que serviu para deixar claro e estabelecer para a História e a consciência do mundo – através das provas, confissões depoimentos públicos – a dimensão do massacre de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, etc.

Muita coisa irá continuar em segredo de estado, sobre os envolvimentos dos EUA com diferentes lideranças muçulmanas (entre tantas outras), que depois, por um motivo ou outro, se tornaram descartáveis. Haja visto o recente abandono dos americanos a seus aliados históricos como Mubarak e outros dirigentes árabes, que a partir da perda do apoio e das bênçãos yankees passaram a ser tratados por toda a imprensa como “ditadores” (o que eles de fato eram, mas assim não eram chamados pela mídia, até então).

No mais, os dez anos de caçada a Bin Laden deixam à nu algum tipo de proteção que o terrorista recebia de autoridades do Paquistão. Os Estados Unidos preferiram arriscar o apoio estratégico do país e fazer o ataque surpresa em Abbottabad, sem avisar o governo paquistanês. Todos têm muita coisa a explicar.

Dança da morte

Enquanto isso, os americanos dançaram e cantaram nas ruas dos States, felizes com o assassinato do fanático líder terrorista. Preferiram a vingança à justiça. Mas quem liga? Obama, aparentemente, não.

Ah, sim. Aparece o The End, no final do filme (um autêntico blockbuster). Mas você sabe: certamente vai ter continuação.

4 comentários:

Sidnei Schneider disse...

Belo e lúcido texto, Zé.
Abração

Steve disse...

Isso sem falar nos videos fake sobre o Bin Laden divulgados pelo pentágono. Ademais há que advogue que a queda das torres gêmeas foi um inside job dos EUA (vide documentário Zeitgeist-espírito de época).

Maria Lucia disse...

Eu nunca confiei nestes gringos FDP!
Belo texto, Zé.

Renato de Mattos Motta disse...

Matou a pau, Zé!
Finalmente um texto lúcido nesse mar de ufanismo americanófilo! Acho que no momento em que a potência do norte resolve abandonar seus ritos de pseudolegalidade e apelar pro assassinato puro e simples, muito há com o que nos preocuparmos! ...mas parece que somos vozes solityarias a gritar em meio ao furacão...
abraço!