sexta-feira, 27 de maio de 2011

Esporte

A lógica da mediocridade no paraíso do futebol


José Antônio Silva


O futebol brasileiro – e o dos demais países terceiro-mundistas – é exemplo acabado de uma lógica ilógica, nociva aos próprios clubes (sem falar na frustração das torcidas), que convivem passivamente com ela. É fácil constata-la – a tal irracionalidade . Mas pelo jeito não é fácil romper este círculo vicioso, que termina configurando um neocolonialismo ligth e charmoso, imerso na mídia globalizada e na publicidade, que solta uma névoa colorida nos olhos das multidões.

Vamos lá: os clubes brasileiros, argentinos, mexicanos, bolivianos, etc., sempre às voltas com dificuldades financeiras, investem por anos a fio na formação de crianças e adolescentes que demonstram maior facilidade ou aptidão para jogar bola profissionalmente.

Alguns destes jovens, na verdade, demonstram enorme facilidade e aptidão para o trato com a esfera – são os chamados craques. O esforço de clubes, associados, torcedores, que, pelo encadeamento racional de investimento e lucro, ou de ação e consequência, deveria resultar em grandes times, com grandes jogadores atuando brilhantemente em seus países de origem, deleitando torcedores e amantes do futebol.

Mas você, eu - e literalmente toda a torcida do Flamengo, do Corinthians, do Grêmio, do Internacional e etc. – sabemos que não é isso que acontece. Nã, nã, não.

A JÓIA MAIS PRECIOSA

Peguemos o caso paradigmático do Tricolor dos Pampas. E da jóia mais preciosa já lapidada a partir de suas categorias de base. Ele mesmo, Ronaldo de Assis Moreira, o popular Ronaldinho Gaúcho. Pelo Grêmio, o craque, que então ainda estava em formação, ajudou a conquistar os títulos do Gauchão em 1999 e 2001. E só.

Quem curtiu o auge de sua forma e exuberância técnica foram os espanhóis do milionário Barcelona, a quem Ronaldinho entregou os títulos de Campeão Espanhol de 2004 e 2005, depois de passar rapidamente (numa outra jogada obscura de sua carreira) pelo Paris St. Germain. Aliás, nestes mesmos anos foi escolhido o Melhor Jogador do Mundo, e recebeu a Bola de Ouro, como Melhor Jogador da Europa. Também brilhou no igualmente poderoso Milan, da Itália. Para os brasileiros, sobrou a conquista da Copa América, em 1999, e a do Mundo de 2002, onde colaborou com um gol de falta contra a Inglaterra, nas quartas-de-final.

Agora, depois de mais uma novela dirigida por seu irmão e procurador Assis, Ronaldinho aplicou um novo chapéu no Grêmio (a quem jurava eterno amor) e foi parar no Mengão. Já em evidente decadência, porém, para a muda decepção de sua torcida e da imprensa carioca.

Já Ronaldão – depois de gastar quase todo o seu talento e energia na Europa – veio curtir, brasileiramente, os últimos anos pré-aposentadoria no Corínthians (e com o que restava de sua força e habilidade, ainda conseguiu entregar de bandeja dois campeonatos para a Fiel).

Adriano vive perdido na ponte aérea Europa-Brasil, acumulando milhagem, mas, constrangedoramente, cada vez mais distante de sua grande fase e de seus melhores dias, entre muitos outros nomes de menor expressão, que só voltam ao querido país natal para se despedir – de vez ou aos pouquinhos - da bola.

Porém, foquemos de novo no Grêmio. Anderson. Começou aos 5 – cinco – anos nos infantis do clube gaúcho. Chegou a ser considerado um prodígio futebolístico à altura de Ronaldinho. Menos. No entanto, um baita jogador. Assinou seu primeiro contrato profissional aos 16 anos. Restou imortalizado na memória tricolor por ser o autor do gol na realmente heróica “Batalha dos Aflitos” sobre o Náutico – que possibilitou a saída do inferno e a volta à Série A do futebol brasileiro.

Mas... já em 2006, aos 17 anos, foi para o lusitano Porto. Resultado: Supertaça de Portugal 2005-06; Taça de Portugal 2005-06; e Campeonato Português 2005-06 e 2006-07. Depois Manchester United. Ajudou a conquistar a Premier League, a Liga dos Campeões, o Mundial de Clubes da FIFA e a Copa da Liga Inglesa.

Lucas Leiva... Cria das categorias de base tricolores. Estreou no profissional em novembro de 2005. Em 2006 recebeu a Bola de Ouro da revista Placar como Melhor Jogador Brasileiro. Várias vezes convocado à Seleção Brasileira. Em 2007 já estava no Liverpool, onde é ídolo da torcida.

Carlos Eduardo, o Cadu. Escolhido Craque e Revelação do Campeonato Gaúcho em 2007 – mas em agosto do mesmíssimo ano foi passado nos euros e despachado às pressas para o Hoffenheim da Alemanha. Passagens pela Seleção Brasileira, e hoje se recupera de lesão grave no Rubin Kazan, da Rússia.

Enfim, como vocês sabem melhor do que eu, a lista é longa e envolve praticamente todos os grandes clubes brasileiros. Mas, além de lamentar que não vejamos nossos craques no melhor de sua forma nos gramados nacionais, o que é que eu quero com tudo isso?

Talvez repisar a irracionalidade de todo esse processo, conforme coloquei no primeiro parágrafo deste texto.

EM BUSCA DA FINALIDADE

Na prática, é como se a finalidade de investir desde a base na formação e aperfeiçoamento desses atletas e cidadãos, não fosse ganhar os campeonatos nacionais, torneios internacionais ou o Mundial de Clubes (o que eventualmente acontece – apesar da política dominante nas agremiações brasileiras). Não: trata-se de formar estes supercraques e – logo que começarem a brilhar - vendê-los imediatamente para a Europa (ou Ásia, etc).

E o que se faz com o dinheiro arrematado nestas transações? Bom, paga-se dívidas dos clubes (muitas vezes, consequência de má avaliação de jogadores e péssimas negociações realizadas) e ... contrata-se jogadores medianos, na melhor das hipóteses, para – estes sim! – serem os titulares dos clubes por uma, duas ou três temporadas.

Ou seja, vende-se os craques para poder montar times inferiores e medíocres. E os cartolas acreditam que assim agindo fazem grandes administrações. Para dar um mínimo de alegria aos torcedores, tratam de contratar ídolos rodados no Velho Mundo, que às vésperas de pendurar as chuteiras ainda mostram algum gás para correr por aqui.

O quadro só não é pior porque a fábrica brasileira de bons jogadores continua produzindo mais rápido do que clubes e empresários-FIFA conseguem vender.

O NOVO VELHO COLONIALISMO

Neste panorama todo, vale elogiar a persistência do Santos, que apesar do festival de ofertas “generosas” dos europeus, vem mantendo em casa cracaços como Ganso e Neymar – este talvez a pepita mais rara já garimpada na Vila Belmiro, depois de Pelé.

Já para os cartolas em geral, dos clubes brasileiros em geral, pode-se dizer que a sorte deles é que não é a massa de torcedores quem vota para escolher os dirigentes dos clubes do coração.

Ah, sim, sobre a lógica que perpassa todo esse universo glamuroso...Trata-se do velho colonialismo, em roupa e estilo contemporâneos. Agora, ao invés de levarem as riquezas tradicionais (ouro, cana de açúcar, borracha, cacau, café, etc), carregam baratinho nossas matérias primas futebolísticas, que transformam em primas-donas futebolísticas. E, dentro da mesmíssima lógica histórica, nos revendem estes “produtos” como itens luxuosos, através de griffes esportivas, bolas, roupas, tênis, chuteiras, produtos diversos - e pay per wiew.

O que faz todo o sentido: ver nossos grandes craques ao vivo, hoje, só mesmo pela televisão.








sábado, 21 de maio de 2011

Poetando

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Diário do mar

José Antônio Silva


Entramos naquele barco que já partia, saltando sobre metro e meio de mar. O que era menos ameaça e bem mais um desafio à nossa potência, à nossa arrogância juvenil.

Entramos a navegar sem bússola ou prévias lições, confiando nas estrelas que desprendiam fagulhas sobre nossas cabeças.

Em alto mar chegamos, e começaram a dar à tona - entremeados às algas - problemas da vida, calmarias, tempestades.

Ficamos sem combustível. O vento nos arrastava para a beirada do mundo - e ríamos em desespero, no tombadilho inundado.

- Homem ao mar!

Amigos, irmãos, iam sendo devorados por peixes e abismos, e deles só boiavam lembranças dispersas, que as correntes arrastavam.

Enfim atracamos em alguns portos, enseadas. Água, vinho, gemidos e gargalhadas. Cabelos de sereias em nossos colchões.

Desaparecimentos havia, motins, deserções. Traidores se mostravam: faca nas costas. Costões onde o barco dançava, ao largo, na escuridão sem farol.

Uma tarde perdemos o leme, e o céu se fechou para nós. O atol de peixes coloridos foi nosso inferno e naufrágio.

Nesta ilha encontrei água doce, e até companhia. Mas inda sonho que o velho barco, ou outro igual, virá me resgatar (embora perceba seu esqueleto estalando debaixo do sol, na maré baixa).

Navios passam com elegância sobre a linha precisa do horizonte: sigo remendando a vela.







sexta-feira, 20 de maio de 2011

Mundo

Nazismo fashion

José Antônio Silva


Primeiro foi John Gagliano, que em explosão fashion de ira, num café parisiense, alfinetou mulheres supostamente judias e elogiou Hitler. Agora foi o cineasta Lars Von Triers, que em Cannes – também na França – fez sua frase: “Eu gostaria de ser judeu, mas na verdade eu era um nazista”. Também foi agradável com o ditador nazista. “Eu compreendo Hitler. Acho que ele fez algumas coisas erradas, sim, com certeza, mas eu consigo vê-lo sentado em seu bunker, afinal”. Depois do vendaval que suas palavras provocaram e possivelmente da ressaca (seja lá do que for), o dinamarquês Triers se desculpou: “Não sou anti-semita ou racista de qualquer maneira, e muito menos nazista”.


OK, ok. Mas vale lembrar aquele milenar dito romano: “In vino veritas”. Sob o efeito do vinho, a verdade aparece. Esta coincidência de várias personalidades, simpaticamente, “compreenderem” Hitler, mais de 60 anos depois do fim da Segunda Guerra, mostra que no mínimo a memória humana é de fato muito curta. E longe dos horrores frente aos nossos olhos, é mais fácil relativizar tudo, sob a névoa das versões.


Mais incômodo ainda é perceber que também à esquerda, volta e meia o nazismo é lembrado como um castigo justo (antecipado?) aos seguidores de Abraão, pelo que fazem aos palestinos.


Ora, em primeiro lugar é necessário lembrar – lembrar bem - que também foram para os campos de concentração, para as câmaras de gás e para os muros de fuzilamento sumário dos nazistas, milhões de comunistas, homossexuais (te liga, Gagliano), ciganos e outros, além dos judeus.


Segundo, a política expansionista e cruel de Israel deve ser condenada de todas as maneiras. Enquanto negociam com líderes palestinos - para os spots e as câmeras de TV, sob as benesses da ONU, dos EUA, dos países europeus, etc. - prosseguem invadindo casas e terras dos camponeses árabes da região, construindo assentamentos e matando um povo há séculos estabelecido naquelas terras pedregosas. OLP, Hammas, ANP e outros grupos palestinos – cada qual a seu modo – vêm procurando enfrentar de um jeito ou de outro, inclusive com o terrorismo de bombas contra civis israelenses, o imensamente maior poderio econômico, militar e financeiro dos sionistas. Questão com nuances e erros de parte a parte, mas que de modo algum pode justificar a política neocolonialista de Israel.


Porém, ai porém... Daí a justificar, ou mostrar simpatia, que seja, por Hitler, vai um oceano de distância. O racista Hitler foi possivelmente o mais cruel e ensandecido tirano dos tempos modernos – um ícone de até onde o Mal pode ir. E passou à História por ter criado um meio científico para eliminar multidões de seres humanos que ele considerava inferiores, para promover genocídios em ritmo industrial.


Simpatia por Hitler? Ignorância histórica, confusão política. Ou então, reconheçamos: há mais nazistas - pop ou não - por aí, disfarçados de gente como a gente, do que supõe a nossa vã filosofia.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mundo

Obama nas profundezas


José Antônio Silva



É de se imaginar os seals sujos de sangue, acompanhados de agentes da CIA de terno e impenetráveis óculos negros na madrugada, participando – respeitosamente, claro - de uma cerimônia fúnebre muçulmana, envolvendo o corpo destroçado à bala, por eles mesmos, pouco antes. A cena cinematográfica pode se passar num hangar fortemente protegido, no Afganistão ou no próprio Paquistão. Corta para o embarque rápido e nervoso em um helicóptero militar, já com as hélices girando, que decola rumo ao Oceano Índico. Antes do nascer do sol no Oriente, o cadáver de Osama Bin Laden desce às profundezas eternamente molhadas de seu inferno, junto com verdades e informações inconvenientes.

Obama, por sua vez, está no Olimpo da popularidade e da glória. As câmeras, agora de TV, o pegam decidido e durão – ele mostra aos falcões republicanos que sabe tomar decisões mortais. Claro, isso não ajuda muito à justificar o Prêmio Nobel da Paz preventivo com que lhe agraciaram, num misto de vassalagem e alívio, depois dos anos Bush. Mas pode garantir a reeleição.

Normas democráticas

Já são claros os motivos pelos quais preferiram assassinar Bin Laden, em vez de prendê-lo e julgá-lo, conforme as regras democráticas e civilizadas que os próprios Estados Unidos insistem em brandir, quando precisam justificar suas intervenções armadas em todos os cantos do mundo. E como utilizaram, no caso de Sadam Hussein. Claro que o líder iraquiano (que, aliás, não possuía as “armas de destruição em massa” que serviram de pretexto para a invasão americana) tinha menos a revelar sobre as manobras secretas dos próprios EUA.

Já o barbudo Bin Laden – além de ter atingido o coração e o orgulho dos States, com crueldade e eficiência máximas e inéditas – era cria dos próprios yankees. Ele e seus fedayin (guerreiros islâmicos) foram armados e treinados pelos EUA para combater os russos no Afganistão, na década de 80, na polarização mundial com a União Soviética, que ainda existia à época. Portanto, tratou-se de queimar um “arquivo” que ainda poderia fazer muitos estragos nas torres da hipocrisia norte-americana.

Consciência do mundo

Não que o saudita milionário Bin Laden não merecesse pagar pelos seus crimes impiedosos e fanatizados, mas... o que houve com o discurso do julgamento justo e imparcial, com as regras democráticas? Até os carrascos nazistas da Segunda Guerra foram julgados (em Nuremberg). O que serviu para deixar claro e estabelecer para a História e a consciência do mundo – através das provas, confissões depoimentos públicos – a dimensão do massacre de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, etc.

Muita coisa irá continuar em segredo de estado, sobre os envolvimentos dos EUA com diferentes lideranças muçulmanas (entre tantas outras), que depois, por um motivo ou outro, se tornaram descartáveis. Haja visto o recente abandono dos americanos a seus aliados históricos como Mubarak e outros dirigentes árabes, que a partir da perda do apoio e das bênçãos yankees passaram a ser tratados por toda a imprensa como “ditadores” (o que eles de fato eram, mas assim não eram chamados pela mídia, até então).

No mais, os dez anos de caçada a Bin Laden deixam à nu algum tipo de proteção que o terrorista recebia de autoridades do Paquistão. Os Estados Unidos preferiram arriscar o apoio estratégico do país e fazer o ataque surpresa em Abbottabad, sem avisar o governo paquistanês. Todos têm muita coisa a explicar.

Dança da morte

Enquanto isso, os americanos dançaram e cantaram nas ruas dos States, felizes com o assassinato do fanático líder terrorista. Preferiram a vingança à justiça. Mas quem liga? Obama, aparentemente, não.

Ah, sim. Aparece o The End, no final do filme (um autêntico blockbuster). Mas você sabe: certamente vai ter continuação.