domingo, 17 de abril de 2011

Crônica Minha

Chavão da memória

José Antônio Silva

Um amigo fotógrafo dias desses se queixou de que toda vez que um prestigiado político gaúcho o encontra, solta sempre a mesma frase, um mix de saudação e reconhecimento padrão: “Aquela tua foto de Cuba continua na parede do meu escritório!”. A tal foto foi feita e presenteada há 25 anos. Depois disso já se viram muitas outras vezes. Mas... é sempre o mesmo ritual.

Uma espécie de truque da memória para realizar algum link com alguém que conhecemos, mas de quem não conseguimos lembrar o nome no momento do encontro inesperado, até por não termos maior intimidade, ou por fazer muito tempo que não vemos. E terminamos caindo sempre numa mesma fórmula, espécie de chavão da memória.

E o chavão da memória, como qualquer outro chavão, tem sua utilidade. Mas, claro, uma utilidade que vai perdendo em força à medida que o clichê é repetido, transformando-se quase numa paródia do sentimento original de reconhecimento e simpatia...

Também eu tenho um conhecido, ou amigo mais distante, que sempre que me vê, ao invés de perguntar o tradicional tudo bem, ou como vai, já sai bradando: “Lavra Livre!”.

Não me desgosta ser saudado em função de algo que criei e onde coloco parte do meu trabalho - muito pelo contrário. No entanto, esse tipo de saudação grandiloquente, seguida de um momento de silêncio que espera uma resposta,(talvez, quem sabe, "Livre Lavra!"), na verdade me parece revelar uma falta de assunto e de maior afinidade entre as duas partes.

Mais ainda: sugere que o sujeito que saúda sequer está interessado em conhecer o pensamento de outro, ou suas opiniões sobre isso ou aquilo, mas apenas fazer um teatro superficial de camaradagem, que não passa disso. Ou não, como diria Caetano (podendo ser apenas... timidez).

Enfim, ninguém pratica esse tipo de saudação genérica e superficialmente elogiosa conscientemente, acredito eu. Não: trata-se de um trabalho automático da mente, que em milésimos de segundo tem que dar conta do nome de alguém que conhecemos, mas já não sabemos exatamente quem é, de onde, quando, como, por que... E só guardamos dele, ou dela, uma marca, uma única imagem, uma única expressão forte.

Falando de gente realmente famosa, é como o sujeito que, numa calçada do Rio, observa a aproximação daquele senhor de vistosa cabeleira branca e colete colorido, sabe que ele é alguém que merece ser saudado – já o viu na TV... E está se aproximando pela mesma calçada, você não pode perder a oportunidade! E quando chega bem perto – aleluia! – o milagre da mente acontece:

- Menino Maluquinho! Que prazer! Adoro o seu trabalho, Millôr Fernandes!

Ziraldo apenas sorri e aperta a mão do fã.

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