quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Conto um Conto

Um aceno do mar


José Antônio Silva


A última vez que o vimos, na verdade só enxergamos o seu barquinho, um cisco a boiar na linha d'água do horizonte.

Levantamos, eu e Lena, ainda de madrugada, sabendo que ele iria partir cedinho. Mas o diabo já tinha ido. Juro que ainda acenou pra nós – lá do meio do mar -, mas não que eu tenha visto.

Pablo tinha avisado que para ele tinha chegado, basta! Não aguento mais, simplesmente deu para mim. Eles todos que vão para a puta que os pariu. Opressores e oprimidos.

E assim fez, botou o veleirinho n'água, ainda antes do sol surgir de dentro do oceano e se foi.

Bom. Voltamos para casa meio jururus, sem palpite. Olha, nem almoçamos naquele dia – e a Lena tem fome, isso eu garanto. Não engorda de ruim, ou então de tanto que nós trepamos. Trepávamos, na época. Hoje ela também pegou o seu barco, digamos assim, e foi velejar em outras águas.

Eu vou sobrevivendo. Tem uma mulher que vem aqui de vez em quando. É nova. Faz a limpeza e a gente dá uma transada. Se ela não aparece... Ou até me esqueço disso.

É que fico pensando na Lena e fico triste. E aí não combina, não é? Pelo menos para mim.

Bueno, naquele dia voltamos para casa e a tristeza tomou conta.

O irmão dela num barco de quatro, cinco metros, no meio do mar! E mar é praticamente uma coisa sem fim. Se nego quiser, ele pode nunca mais pisar em terra e continuar vivendo. Em tese. A água seria da chuva. Comida? Bom, dê-lhe peixe.

Óbvio, reconheço que esse papo não se sustenta, claro. É só para não ficar sempre pensando as mesmas coisas.

O Pablo já tinha estado preso duas vezes. Não aguentava ver injustiça calado. Eu, menos corajoso, digamos assim, ficava na minha, em geral até fingia que não via, mesmo vendo tudo e sentindo igual a ele.

O cara foi se aborrecendo, se aborrecendo, sabe como é que é?

Até os caras que ele tinha defendido, correndo perigo, evitavam, atravessavam a rua. Tipo, melhor passar longe da confusão... Achavam que ele era um ímã para atrair a polícia e os bate-paus.

(cá entre nós, vou ter que reconhecer que era mesmo... mas isso porque os homens já ficavam de olho, de marcação com ele).

Mas enfim, um sujeito que vive numa ditadura e acha que pode reclamar sempre que lhe dá na telha, já se pode adivinhar os desfechos, né... E ele mesmo adivinhava, pois burro estava longe de ser.

E tratou de tomar sua decisão, entre as possíveis.

Pegar em armas e subir a montanha ficava difícil – aliás, não tem montanha aqui nessa terra, só uns morrinhos pelados e ressecados pelo sol.

Assaltar uns bancos e se armar para fazer a revolução, em “aparelhos” urbanos, como diziam, era inviável. Toda a meia dúzia de comunistas do país era composta por velhos fichados e vigiados – falo dos que não estavam presos nem tinham morrido por aí, acidentalmente...

Os jovens estavam no shopping ou fazendo modificações radicais na sociedade, mas virtualmente, sabe como é. Ou então trabalhando duro para ganhar o mínimo para sobreviver.

Pichar muros e distribuir folhetos contra o governo ele até fez. Quando descobriram, foi preso e apanhou muito. A polícia empastelou a gráfica do amigo dele - que a partir daí não queria nem olhar para a cara do Pablo.

Neste quadro todo, em que até o cachorro dele foi atropelado pelo camburão da polícia na última vez que o levaram para interrogatório, ele sacou que só sobrava a alternativa de fazer-se ao mar. Até porque a fronteira terrestre era especialmente vigiada.

A Lena, você quer saber?

Ela tinha fixado seu olhar acusador sobre mim – pois, para ela, alguém de carne e osso precisava ser o responsável, ou melhor ainda: alguém em quem ela pudesse pôr as mãos, pois não bastava dizer “a ditadura”. Eu era o culpado por não ter apoiado de fato o irmão dela.

Por não ter emprestado à ele o dinheiro da minha pequena empresa de transportes, para que Pablo pudesse “organizar a resistência”.

Fato é que já há dois ou três anos ele vivia às nossas custas. Primeiro que, sendo vigiado pelo regime, as pessoas temiam empregá-lo, especialmente para trabalhar em sua área, a informática, muito visada pelas autoridades. Eu insisti para que me ajudasse a gerenciar meus negócios: quatro caminhões que transportavam desde mudanças residenciais, com algum cachorro pulando entre poltronas, na carroceria saltitante, até cargas de milho ou de banana ao porto.

Pablo nem tentou. Tinha certeza de que não nascera para aquilo – me garantia, com a vista mirando a linha do mar.

Desesperada com a repentina (mas até certo ponto previsível) atitude do irmão, Lena passou a ver em mim o responsável maior por aquilo. Egoísta, era o que eu era. E um grande covarde. Um ser desprezível. Odeio você!

Talvez um ano depois que desaparecera no oceano, e oito ou nove meses que Lena se fora, entre a enxurrada de contas a pagar e avisos bancários, recebi um cartão postal, na sede da empresa – um grande barracão de madeira e alvenaria, onde também estacionavam os caminhões.

Antes de ler qualquer coisa, já sabia que era dele. Quem mais? A Torre Eiffel iluminada, tudo aquilo que hoje perdeu o sentido, com a entrada da internet em cena. Embora, claro, há quem ainda curta isso, assim como continua sendo bem mais charmoso e cult – ou autenticamente romântico – mandar e receber uma carta escrita à mão, envelopada, selada, postada e entregue pelo correio.

Não era romantismo o motivo do cartão postal sem assinatura. Ou talvez fosse. Ainda tenho uma cópia do cartão, guardada em uma gaveta (uma gaveta secreta, pois a ditadura que já terminou em países vizinhos, aqui aproveita uma sobrevida, até quando for possível).

Estava corretamente endereçado: Ao Sr. Fulano. Mas errava no complemento: e Senhora.

Já não havia senhora, pelo menos não ao meu lado.

Caros! Aqui em Paris, onde estou por um período, respiro ao ar livre, embora o frio entre junto no peito, neste final de outono. A capital francesa me acolheu tão bem como o mar nos acolhe. Sempre se encontra amigos, velhos ou novos, nos momentos mais críticos, dispostos a nos rebocar para que sigamos adiante. O importante é não esquecê-los. Não esquecer. Com afeto, com saudade, com gratidão.

Não havia o endereço do remetente, que também não se identificava.

Não sei bem porque, tirei uma cópia xerox, coloquei o original dentro de um envelope lacrado e o enviei para Lena.

Quem sabe?





Um comentário:

Steve disse...

Very good, é o que todos nós desejamos em segredo cometer um dia: fazer-se ao mar!