segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Livro



Gênesis: quando o genial Robert Crumb dobra os joelhos e ora no deserto

José Antônio Silva

O que é um artista de gênio? Um – também – artesão extremamente habilidoso? Um (re)pensador, criando sobre o que é velho e batido? Alguém que busca romper barreiras em sua arte (quase sempre fazendo o mesmo em sua vida privada)? Alguém cuja obra tresanda à originalidade? Ou, quem sabe, alguém que engaja seu talento à uma causa, tema – ou fixação – pela qual se apaixona?


Pode não ser nada disso, mas tudo isso pode ser dito da genial – mas sóbria e contida – interpretação do bíblico livro do Gênesis, pelo desenhista americano Robert Crumb (30 de agosto de 1943), lançado este ano no Brasil. É um volume de capa dura, que pára em pé, da Conrad Editora, com 200 páginas de quadrinhos de desenho minucioso, e mais umas dez de introdução, notas e comentários da editora e do próprio Crumb, falando do trabalho que teve e dos cuidados que tomou com a tradução dos textos bíblicos originais, cotejando diferentes versões, esclarecimentos de especialistas, etc. Como ele mesmo anuncia, antes de (re)criar o mundo: “Eu, R. Crumb, ilustrador deste livro, no melhor da minha habilidade, reproduzi fielmente cada palavra do texto original, que tirei de várias fontes...”


Versão sem subversão

O trabalho é em si deslumbrante, pela riqueza de detalhes, pela farta dose de imaginação que precisou para traduzir graficamente conceitos nebulosos da mística e simbólica linguagem bíblica. Mas também chama bastante atenção o fato do papa do desenho underground dos anos 60/70, anárquico e contracultural, crítico duro de todo o stablishment, autor de personagens corrosivos e cínicos das HQ, como Mr. Natural ou Fritz, o Gato, vir à público depois de muito tempo com uma versão absolutamente respeitosa do Gênesis, onde não se permite subverter conteúdos nem questionar o discurso através da forma.


A palavra de Deus

Como se tivesse sido tocado pelo peso milenar da tradição que gerou religiões e culturas como o Judaísmo, o Cristianismo, o Islamismo, sendo ainda um dos pilares da cultura ocidental, Crumb deixou-se ser apenas – apenas? – um ilustrador da “palavra de Deus”. Mas faz questão de dizer que “ironicamente, eu não acredito que a Bíblia é a palavra de Deus”. E lá pelas tantas, em uma de suas notas, critica a visão “misógina e antimatriarcal do Gênesis”. No entanto, reconhece: “É um texto poderoso, com camadas de significados que mergulham fundo em nossa consciência coletiva, ou consciência histórica, se preferir. Parece mesmo ser uma obra inspirada, mas acredito que seu poder deriva de ser um empreendimento coletivo que evoluiu e foi sendo condensado por várias gerações até chegar à forma final, consolidada durante o exílio na Babilônia, em 600 A.C.”


Explicações e racionalizações à parte, teria o rebelde Robert Crumb se transformado num homem religioso, temente a Deus? Se assim foi, é perfeito que tenha escolhido para ilustrar o capítulo fundador do Velho Testamento, onde o Deus – pelo menos o Deus dos judeus (pois à época ainda eram reconhecidos outros, citados no próprio Gênesis) - não era ainda o deus do amor e do perdão. Mas um senhor de poder absoluto que exigia obediência igualmente absoluta e cega; exigia temor, e era dado a imensas descargas de ira santa, recompensando bem, no entanto, os que abaixavam eternamente a cabeça. Como os ditadores e tiranos sempre fizeram através da história, em carne e osso.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Cultura





MPB acendeu luz na noite da ditadura

José Antônio Silva

A longa noite da ditadura no Brasil, a partir de 1964, também acendeu alguns pontos de luz na cultura brasileira, muito especialmente na tal de MPB. Dia desses assisti ao documentário “Uma noite em 67”, dos bons estreantes Renato Terra e Ricardo Calil, que põe em foco não só o palco do histórico 3º Festival de MPB da TV Record, em outubro de 1967, com suas canções top de linha, mas também os bastidores. E é nos bastidores, nas revelações e confissões dos jovens e ingênuos futuros medalhões da música brasileira – Gil (na foto acima), Caetano, Chico, Edu Lobo, Roberto Carlos, etc – que reside o diferencial.

Parada duríssima

As seis classificadas já eram, por si mesmas, ícones da canção popular do país, que só ganhariam mais significação nos anos que se seguiram. Quem venceu foi “Ponteio”, do Edu Lobo; e era uma excelente música. Mas quem reclamaria, hoje, se, ao invés, tivesse ganho “Alegria, Alegre”, do Cae, “Construção”, do Chico Buarque, ou “Domingo no parque”, de Gil? Parada duríssima, não é mesmo? Entre as outras classificadas, “Maria, carnaval e cinzas” (de Luiz Carlos Paraná, cantada pelo Rei da Jovem Guarda, Roberto Carlos, só pra mostrar que à época já era um craque da interpretação, inclusive no samba). Em sexto, ficou “Beto Bom de Bola”, de e com Sérgio Ricardo – mais conhecida pela vaia de um público deslumbrado pela própria liberdade (pelo menos aquela!) de vaiar, e pelo violão que o autor jogou na platéia, do que pela canção mesmo.

Falar em vaia e festival, vale citar o discurso em alta voltagem de Caetano, na edição seguinte do mesmo Festival – no paradigmático ano de 68 – em que ele desanca o público que o vaiou ao cantar “É proibido proibir”, vestido com um traje tropicalista (no ano anterior, ainda envergara um comportado bleiser quadriculado sobre uma blusa de gola rolê). “Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”, mandou para o público histérico. E sobrou para os jurados: “O júri é muito simpático, mas incompetente!”.

Protesto!

E corta pra outro assunto, mesmo ficando na mesma praia. Voltando à primeira frase desse texto, pode-se pinçar no repertório clássico da MPB entre 1964 e 1985, entre várias outras opções, várias canções “de protesto”, explícitas ou implícitas, contra a ditadura militar, o autoritarismo, a esperança em novos dias. Toca aí, algumas:

“Para não dizer que não falei de flores” (Geraldo Vandré); “Vai passar” (Chico Buarque); “Apesar de você” (Chico Buarque); “Meu caro amigo" (Chico e Francis Hime); "Eterno Aprendiz" (Gonzaguinha); “O bêbado e o equilibrista”, "Não põe corda no meu bloco" (João Bosco e Aldir Blanc); “Disparada” (Vandré e Theo de Barros); “Cálice” (Chico e Milton Nascimento); “Tropicália” e “É proibido proibir” (Caetano), “Procissão” (Gilberto Gil); "Charles Anjo 45" (Jorgen Ben); "Cartomante" (Ivan Lins e Vitor Martins); “Mosca na sopa” e “Ouro de tolo” (Raul Seixas); “À palo seco”, “Apenas um rapaz latino-americano”, “Como nossos pais” (Belchior); “Pialo de sangue” (Raul Elwanger); “Aquele tempo do Julinho” (Nelson Coelho de Castro); “Admirável gado novo” (Zé Ramalho); e etc, etc...

E quem quiser que conte outra.


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Crônica Minha

Deixa eles se divertirem um pouco, gente!

José Antônio Silva

Assim como a marmota invariavelmente anuncia, no início de fevereiro, se o inverno norte-americano será longo ou mais curto, aqui no Brasil também sai da toca jornalística, periodicamente, a pauta dos vereadores e prefeitos que se locupletam com o dinheiro público. Agora aconteceu de novo, via Zero Hora e RBS. A notícia: vereadores de uma rica cidade do interior gaúcho flagrados fazendo turismo nas cataratas de Foz do Iguaçu, ao invés de comparecer as aulas do “curso de vereador”. A verdade é que existe todo um forte segmento do turismo, espalhado pelo Brasil, alimentado basicamente por congressos, seminários e cursos que já são montados para ninguém realmente comparecer. Ou seja, no setor, o bom, o certo – “gerando empregos e renda, aquecendo a economia” - é matar a aula. Para bem de muitas comunidades.

A mídia denuncia, o Ministério Público e outros setores cumprem seu papel investigando, exigindo o ressarcimento das “diárias” aos cofres públicos e processando criminalmente os lídimos representantes das câmaras de vereadores, por todo o país.

Deixa pra lá
Os repórteres reportam e os comentaristas comentam. Alguns colunistas tentam explicar dizendo que a população esquece o que seus edis denunciados fizeram com os recursos públicos, nos últimos verões e invernos. Afinal, grande parte deles são reeleitos como vereadores, ou mesmo vencem pleitos para prefeito, deputado... Mas a sempre destacada certeza da impunidade é só um dos (maus) elementos que compõem a equação “farra municipal com o dinheiro público“.

É pior que isso. As pessoas não “esquecem” – as pessoas perdoam. Mais delicadamente, as pessoas relevam. E por que colocam novamente, como seus representantes na máquina pública, sujeitos que comprovadamente exorbitaram das funções, enganaram, prevaricaram?
Ora, entendo que as pessoas são essencial e paradoxalmente honestas consigo mesmas. Sim, a maioria delas sabe que, estando lá, provavelmente agiria da mesmíssima maneira que seus representantes. Mais: por conta disso não consideram que fazer turismo pessoal à custa do dinheiro público chegue a ser um crime; em sua visão, trata-se apenas de um pecadilho.

Apesar disso
E, nas pequenas cidades de onde vem talvez a maioria dos casos de abusos do tipo, eleitores e eleitos se conhecem, dificultando inda mais a separação de público e do privado, dos interesses pessoais e dos coletivos. Pode-se até dizer que, conhecendo seus vereadores, determinam que – “apesar disso” – eles têm outras qualidades pelas quais vale a pena reconduzi-los ao cargo. (E numa dessas até podem ser convidadas a embarcar em um destes trenzinhos da alegria).

É um problema em escala: este baixo clero de vereadores (e prefeitos) pratica, em nível municipalista, o mesmo que muitos dos membros das Assembléias, Câmara Federal e Senado realizam com as verbas públicas em suas respectivas faixas de atuação - para não falar aqui de outros setores da administração pública.

Em última análise, parece vigorar em todo o nosso imenso país – sem que a auto-decantada maioridade política do RS, e o “orgulho gaúcho”, se afastem um milímetro da regra geral - a má e velha idéia de que fulano rouba mas faz. E tem mais. Para desespero de alguns, Sérgio Buarque de Holanda tinha razão e o brasileiro (quando não está se matando por aí) é mesmo cordial: “Deixa eles se divertirem um pouco, gente!”.

domingo, 1 de agosto de 2010

Balaiada Hightech - V

Labirinto

José Antônio Silva

O mistério da primeira vez

o segredo obtuso de cada rês

a rotina quebrada de todo o mês

o arabesco no cérebro, sob o fez

a fé que se insinua, quando não crês.



Em tudo

o labirinto onde andas.

Mas nunca o vês.

(in LÁ VEM O QUE PASSOU, SMC-Porto Alegre, 1995)

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Bad book

Há livros para todos os gostos

e alguns para nosso desgosto

- estes porém nos traduzem

quando tombamos na rua

quando perdemos o posto

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Armazém

Inconsciente

é o armazém das idéias

de toda a gente

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Da imprensa:

“Transgênico já é obsoleto”.

Cá entre nós:

Natural é sempre absoluto.

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Um toque em Braille

“Veja bem”... – dizia o cego frente ao microfone

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Universais cotidianos

Amor – Aquele que vem a nós, é claro

Esperança – Um dia há de chegar

Felicidade – Daqui há cinco minutos passa uma

Fraternidade – Meu pirão bem servido primeiro

Generosidade – E o que ganho em troca?

Honestidade – Mas foi só um pouquinho!

Igualdade – Com aquele ali?!

Justiça – O mundo é assim mesmo...

Liberdade – Demais atrapalha

Tolerância – Mas tem limite!

Verdade - Tem certeza?