domingo, 30 de maio de 2010

Poetando

Poetas amigos (II),

que por aí gorjeiam,
também pousam por aqui.
Para o bem de todos e felicidade geral. Confiram.




Universo


É tapete aberto

maior que um deserto

e se mexe pouco,

mas deixa o olho alerta.

Miragem, mosaico,

mapa assimétrico,

morada e masmorra.

Chama-se universo

Wladimir Cazé

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Poeta
cruza de beija-flor
com vampiro
esteta

Laís Chaffe

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Signo



a cadeira
onde sento para
escrever poemas
sequer suspeita
da trama conceitual
que envolve
sua existência

Lau Siqueira

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Outono de 2005


estou a falar de coisas muitas:

sou exigente de aeroplanos e andorinhas

precisada de aprender loopings

para as horas mínimas

de alçar-me disco voador

estou a dizer de coisas absurdas:

um peso de papel impedindo

extravios

âncoras retendo navios

estou a inventar coisas invisíveis:

palavras incineradas pelo outono

folhas soletradas na boca do vento

estou a imaginar uma coisa triste:

poeira sobre o poema de Deus

Celia Maria Maciel

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Maresia


barafundar

é palavra estranha

um barco afundado

algum barato lindo

a baderna feita

na taberna

alguma coisa

talvez mudando

a sombra na parede

da caverna

a doce e terna

luz da fala

alguém

mexendo fundo

o rabisco na carne

do mundo

Mario Pirata


segunda-feira, 24 de maio de 2010

Política

“Quem ele pensa que é?”


José Antônio Silva

Desta vez, a grande mídia brasileira sequer procurou esconder a própria e perversa euforia com a posição norte-americana de ampliar as sanções contra o Irã, com isso buscando ignorar e desqualificar o inesperado acordo sobre a questão nuclear iraniana, obtido pelo Brasil e Turquia em negociação histórica. A postura dos comentaristas profissionais - e dos especialistas cuidadosamente selecionados para as entrevistas – foi, como de costume, colonizada e fez coro ao discurso do Departamento de Estado dos EUA. Nossos maiores jornais, revistas, rádios, blogs e TVs, desde o anúncio da decisão de Lula, já procuravam de todas as formas ridicularizar seu esforço pela paz no Oriente Médio como um absurdo (“mas quem ele pensa que é?”).

Quando o acordo foi fechado, após dias de intermináveis reuniões, a imprensa brasileira não deu o espaço adequado e merecido ao feito. De péssima vontade, e sem muito o que dizer naquele momento, procurou ouvir as vozes de sempre, a criticar e argumentar que “nada garante que o Irã vá de fato respeitar o que foi assinado”. Ora, desde quando algum acordo já traz em si a garantia de seu cumprimento? Sem dúvida foi um grande primeiro passo. Afinal, para evitar mais um possível conflito sangrento no mundo, tudo vale – ou deveria valer – a pena, pois não?


O rabinho da mídia

Pois sim. Todo o espaço e o destaque que não deram para noticiar o fechamento positivo do acordo, veio na hora de reproduzir as críticas dos EUA e sua pressão sobre a ONU para aumentar as sanções ao Irã. De quebra, macaquearam as chamadas da mídia internacional, especialmente a americana, que criticou a posição do Brasil e Turquia como “ingênua”. Por trás de tudo, o aparato industrial-militar dos States já faz seu s brindes e apostas, escutando o tilintar próxima da caixa registradora. Daqui do Sul do mundo, nossa mídia abana o rabinho, obediente aos cowboys do Pentágono e Casa Branca. Obama e Hilary Clinton apesar de todas as esperanças mundiais neles depositadas, seguem a cartilha do Big Stick.


O retirante Lula, gênio incontestável da política de negociação, em qualquer nível, que se cuide - ele e essa sua perturbadora propensão a utilizar a diplomacia brasileira não para dizer amém ao donos do mundo, automaticamente, mas para tentar ajudar a resolver por esta via os conflitos do mesmíssimo mundo.



quinta-feira, 20 de maio de 2010

Poetando

Escape

José Antônio Silva


Teóricos debatem
em Simpósio:
no Século XXI
a Poesia
ainda vive
ou está morta?

(Enquanto discutem
ela escorre
discreta
entre seus sapatos
e escapa
para a luz
por debaixo da porta)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Crônica Minha



As reflexões de Dunga no Planeta Bola Quadrada

José Antônio Silva

Velho e duro volante da roça, Dunga entrou com as travas da chuteira na história do Brasil (apesar de se orgulhar, justificadamente, de sua mãe ser professora desta matéria e de geografia), na recente entrevista que concedeu sobre a lista de jogadores convocados à vestirem a camisa da seleção brasileira. Nosso campeão mundial de 1994 deve ter matado as aulas da mãe para quebrar umas canelas juvenis no campinho mais próximo, quando guri.



Emocionado com a própria facilidade e clareza de expressão - em meio a uma enxurrada de declarações sobre os motivos que o levaram a resgatar pernas-de-pau como Elano e Josué, ou ex-atletas como Gilberto Silva, e deixar num banco virtual e eterno os garotos da Vila (alô, Grêmio!) e Ronaldinho Gaúcho, por exemplo - o técnico canarinho piou: disse que não sabia se a ditadura militar brasileira, ou mesmo o período de escravidão, tinham sido ruins. “Afinal” – aqui ele justificou suas dúvidas – “eu não estava lá”.



Bom, eu também não estava lá na Alemanha Nazista, mas não deve ter sido nada agradável – a não ser para os arianos confirmados e militantes. Enfim, pode não ter sido ruim sobreviver num campo de concentração: quem sabe?

“Eu não estava lá”
Mas pensando bem, no caso da ditadura brasileira o Dunga “não estava lá”? Como assim? Ele nasceu em 1963, um ano antes do golpe militar. Mas em 1985, final da ditadura, ele tinha 22 anos. Nesse tempo todo de vida – mais de duas décadas – ele sequer tinha percebido que existia num país onde gente era presa sem culpa formada, onde alguns desapareciam para nunca mais, em que existia censura, tortura, bombas em Riocentros e coisas afins?
Se ele não estava “lá”, onde estaria? No Planeta Bola Quadrada, talvez?



Ok, ok, eu sei. È até covardia levar a sério e discutir a cultura geral do nosso inegavelmente esforçado Dunga. Mas o caso é que ele é uma figura pública e pisa na bola ao ficar falando com pompa e - vamos reconhecer – até com ironia, sobre temas complexos dos quais não tem a menor idéia. Como diria Nelson Rodrigues, discorreu com uma profundidade que uma formiguinha atravessaria com água pelas canelas.




Falando no mestre Rodrigues, cabe lembrar outra frase dele, segundo a qual a seleção brasileira de futebol é a pátria de chuteiras. Bom, figura de linguagem é uma coisa. A outra é que Dunga parece acreditar piamente nisso. E dê-lhe patriotadas e conclamação a que os seus gladiadores verde-amarelos destrocem quem se lhes fizer frente no campo. Campo? Campo de batalha!



Bom, a próxima Copa é na África do Sul. Lá, até recentemente, vigorava o “apartheid”. Será que foi ruim? Não sabemos – não estávamos lá.



Enfim, pode ser que Dunga seja bom em geografia.


(Aqui ao lado, brilhante colaboração enviada pelo Paulo Caruso: "Dunga Deprê").

terça-feira, 11 de maio de 2010

Poetando

Poetas amigos,

que por aí gorjeiam, também pousam por aqui. Vejamos, leiamos, curtamos.


NOTURNO DO NAVIO-ELEFANTE

No cais do porto, à noite
ancorado e abandonado,
um navio tem o aspecto
de um animal raro,
exposto a curiosidade alheia

Triste, pesado e mal cuidado,
seu casco lembra uma pele envelhecida
só por compaixão

O navio-elefante e sua solidão.

José Schenkel Weis
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OS INOCENTES


Nós íamos ao parque na inocência

para muito prazer, divertimentos
e um pouco de sorte nas argolas.
Jamais nós retivemos uma imagem
de forma superior à sua essência
a fim de que depois fosse expressada.
Jamais observamos qualquer ritmo
de carrossel, de roda ou trem-fantasma
exatos e velozes como o medo.
Jamais nos dirigimos ao porteiro
a fim de questionar o que não fosse
um preço de bilhetes ou a hora.
Jamais pensamos que essa arte toda
seria assim um dia necessária.

Celso Gutfreind

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AMOR AOS POUCOS


Poucas pessoas conheço
com amor no endereço

Poucas pessoas se lembram
do amor dobrado no lenço

Poucas pessoas confessam
o amor que já fez estrago

Poucas pessoas receitam

aquele amor sem remédio

Poucas pessoas agüentam
quando o amor estremece

Poucas pessoas enxergam
o amor de quebra no espelho

Poucas pessoas conservam
O beijo do amor ardente

Poucas pessoas entendem
a carta que o amor deixa

Poucas pessoas conseguem
Nenhuma delas esqueço

Nei Duclós
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o corpo nomeado e dissecado pelo anatomista

o sexo com luvas de borracha do ginecologista
o corpo loteado e tabelado pela prostituta
o sexo à espera no banco de espermas
o corpo sem o dono no sono
o sexo sem nexo do sonho
o corpo sem sentido do morto
o sexo solitário do rato no laboratório

Ricardo Silvestrin
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PROMETEU

Agrada-me o chegar perto do fogo,
no tão próximo onde se desfazem
as certezas, amo o gesto e o risco,
a aventura do fogo, e tanto mais
se for para roubá-lo de Zeus Pai.

Sidnei Schneider

domingo, 9 de maio de 2010

Poetando

Profunda superfície


José Antônio Silva



O superficial pode deslizar ao superficial – horizonte e mais horizonte e mais horizonte.

O superficial pode arremeter ao profundo – vertical mais vertical e mais vertical.


O profundo pode aflorar ao superficial – superficial mais superficial e ainda mais superficial.

O profundo pode lançar-se ao profundo – profundo mais profundo e mais profundo.


Mas o superficial mais, e indefinidamente, mais superficial, é ficar na mesma, correndo na esteira estéril da superfície sem fim.

Mas o profundo, mais e mais e ainda mais profundamente profundo – queda livre e eterna, ou subida ao infinito – questiona no ato a própria noção de movimento e espaço.


Melhor enfiar cada pé num plano. Abismo e montanha são o mesmo.

Lá vai: alterne o ponto de vista. Não sacuda.

Tomara que dê certo.


quarta-feira, 5 de maio de 2010

Balaiada Hightech

Quer saber?

José Antônio Silva


Literatura é uma forma sofisticada de alienação

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Tudo já foi dito sob o sol. Apenas pie

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Gravata: o nó da forca enquanto elegância

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A natureza é nua e crua

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“Com certeza”: forma mais popular de confessar dúvida razoável ou total ignorância

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Todos os índios são tristes


Crônica Minha

O Jordão é traiçoeiro, mas Miguel é bom barqueiro (*)

José Antônio Silva



Costuma-se dizer, com ironia, que nada mais é sagrado. Talvez isso nunca tenha sido tão verdadeiro, nos últimos tempos, quanto a notícia de que o rio Jordão está virado num filete de água suja com raros peixes sobreviventes, contaminada por esgotos e resíduos de agrotóxicos. É possível que o termo “rio”, tecnicamente, já seja um exagero: uma foto recente divulgada na internet mostra um homem atravessando-o com água pela metade das galochas.


Sagrado? Sim, só para lembrar, ou constar: o rio Jordão é aquele de muitas passagens bíblicas e onde Jesus Cristo teria sido batizado pelo santo João, dito Batista. Hoje, Cristo só poderia molhar suas sandálias por ali – e correndo o risco de arrumar no mínimo uma doença de pele. Em compensação, seria bem mais fácil “andar sobre as águas”.


Ah, você não é cristão e está se lixando para tudo isso? OK, mas o sagrado é maior do que histórias desta ou daquela religião.


Um rio – ou a água – por ser indispensável à vida (não só a humana) no planeta, de certo modo é sempre sagrado. Ou assim devia ser encarado – no que o termo significa de respeitoso.


O fato é que no mundo todo, e em especial nas regiões áridas como o Oriente Médio, a água é um bem precioso e muito cobiçado. Todos a querem. No caso do velho Jordão, 80% das águas que o tornavam caudaloso foram desviadas do curso e represadas em barragens, para diversos fins, por Israel, principalmente, e também pela Síria e Jordânia.


Os estudiosos acham que, nesta batida, até o fim de 2011 o rio terá secado por completo – morrido.


Ao que tudo indica, Jesus Cristo terá de fazer um milagre maior, bem maior, para salvar o Jordão, e todas as águas do mundo, da inesgotável sede de lucros, cobiça e voracidade do seu rebanho.


(*)Trecho da versão brasileira de música gospel americana dos anos 60, recheada de “aleluia, aleluia”!