sábado, 3 de abril de 2010

Livro


Sangue ruim

José Antônio Silva

“Pensava em termos de roubo. As casas eram construídas para serem arrombadas, os cidadãos deviam ser roubados, a polícia devia ser evitada e odiada, os delatores deviam ser castigados, e os ladrões deviam ser aprimorados e protegidos. Esse era o meu código, o código dos companheiros. Esse era o ar que eu respirava”.

Fala a verdade – em termos de visão de mundo e ética própria, a acima descrita tem muito mais honestidade intrínseca, dentro de seus limites, do que a maioria dos discursos que escutamos por aí. Ou não?

Trata-se de um texto do perturbador “Sangue Ruim”, livreto – curto e, em todos os sentidos, grosso – editado há alguns anos pela Conrad Editora, e que agora reli.

Não recomendável para espíritos sensíveis, o velho Coleman – escritor e ilustrador barra pesada, figura cult do underground norte-americano – relata ao seu jeito quatro biografias de foras da lei não tão famosos como Billy the Kid ou, sei lá, Al Capone.

Não entraram para a história nem para o cinema, estes seres. São o ladrão Jack Black (no retrato ao lado, especializado em assaltos à mão armada e arrombamentos, alcoólatra e viciado em ópio), aliás, o autor da declaração de princípios acima. São Bertha "Vagão de Trem" , vagabunda e andarilha dos anos 30, prostituta, ladra eventual. E dois dos mais endiabrados e lunáticos serial killers de seus respectivos tempos: Carl Panzram e Paul John Knowles.

Histórias repletas de sofrimento do início ao fim, embaladas por uma coragem suicida – muitas vezes cruel (caso todo especial do tal Panzram), mas sempre inseparáveis de infâncias levadas à base de abandono, abusos de toda a ordem, muita violência, exploração, preconceito e outras especialidades de nossa sociedade bem comportada.

O velho Coleman, no entanto, não nos priva de algum humor eventual, uma ironia aqui, um sarcasmo bem assestado ali. Mas são relatos secos e sempre na primeira pessoa verbal, assumindo a personalidade de cada um dos, digamos, depoentes.

(Em tempo: no segundo parágrafo destas mal traçadas, quando critico a “maioria dos discursos que escutamos por aí”, não me refiro aos políticos, em especial. Eles não enganam mais nem menos do que uma imensa parcela dos eleitores, na vida pessoal e nos negócios. Apenas, pagam o preço de estarem sempre na vitrine, sob grande visibilidade.)

Aparentemente feitos à machado por Coleman, lendo – e olhando – de novo estes perfis, observa-se que o resultado foi um fino estudo psicológico, em que os criminosos (às vezes bestiais) são também vítimas.

Sim, o livro é perturbador. Mas quem é que não precisa levar um sacode de vez em quando?

2 comentários:

Eduardo Simch disse...

Bah, se eu não conseguir comprar vou querer emprestado.

Steve disse...

Very good! siga a ler!