sexta-feira, 9 de abril de 2010

Conto um Conto

Aplacativos e amenizadores - o garoto

José Antônio Silva

A mãe olhou de novo para a placa pintada em cinza, sobre a porta da casa antiga e mal conservada. “Aplacativos e amenizadores”. O que é isso?

Não tinha campainha.
Enfiou a cabeça pela porta entreaberta.
- Com licença...

Da semipenumbra, uma voz respondeu, grave:
- Vá entrando, amiga. Por favor, vá entrando.

Ela puxou o filho de arrasto. Onze ou doze anos. Cabelo repenicado.
- Merda, mãe!

- Podem sentar – a voz.
- Tomar no cu – o garoto.

- O senhor desculpe, sabe como é... esse menino... eu...
- Já entendi, não se preocupe.

A mulher caminhou até uma cadeira postada em frente à escrivaninha, solitária no centro da sala. Sentou. Sua mão direita garantia a presença próxima do filho. Um abajur providenciava alguma claridade, iluminando um computador em minúscula mesinha auxiliar.

- Me disseram que o senhor podia..., que vocês podiam... me ajudar. Nos ajudar... Esse menino me dá um tra...
- ...balho. Claro. E também não vai muito bem na escola.

Bateu a ponta da caneta sobre a mesa. Levantou o rosto, sério, olhos nos olhos.
- Mas não é culpa dele. Nem sua.

- O senhor acha? O senhor já tratou outros casos assim?
O homem afastou sua cadeira de rodinhas da mesa. Fez-se silêncio, por alguns instantes.
- Não se preocupe, sou especialista – a voz tranqüila e segura.

Olhou para a cortina floreada, no fundo da ampla sala. Tossiu baixinho.

- O que houve com o pai dele?

A pergunta saiu junto com quem a pronunciava, ao atravessar a cortina. Um homem velho - bigode branco, fino como um risco -, de terno antigo, sem gravata e calçando chinelos.

- Este é o meu... Barbosa, o doutor Barbosa. Ele é nosso consultor.
- Certo, certo... – ela apertou a mão do consultor. - Vocês são... aplaca, aplica, aplana... – confundia-se.
- Aplacativos e amenizadores, como está escrito em nosso... display, no lado externo do estabelecimento – respondeu o homem da mesinha. – Aplacamos e amenizamos a dor.
- Mas então. O que aconteceu com o pai do guri?
- Tomar no cu! – o garoto, agora em voz mais baixa.

Suspiro da mãe...
- Ele foi se embora. Já faz cinco anos. Diz que a vida comigo era um inferno. O Maicon nunca se conformou.
- Puta que pariu, mãe!
- Ele não era assim, sabem? Agora está revoltado desse jeito.

- As coisas acontecem pelo melhor, minha filha.
(Agora era a dona Leontina, a outra especialista, que saía da cozinha, nos fundos, trazendo um cafezinho para a cliente, outro para o especialista e uma bala para o menino). Vinha falando:
- Já pensou crescer com um pai que não gosta da casa, não gosta da gente, está com a cabeça em outro lugar? O mundo gira e as coisas se ajeitam. Tenha fé! A balinha é pra ti, Marcos.

- Maicon, porra!

- Você não pode, Barbosa! – ela criticava o outro consultor. – Tem pressão alta! – e afastava a bandeja com o café do alcance do homem idoso.
A mãe do garoto bebia seu cafezinho aguado e adoçado.

A consultora Leontina ajeitou a haste dos óculos, presa com um pequeno pedaço de esparadrapo, e olhou bem para a mulher na cadeira.

- Ficou bom? Eu sempre esqueço e ponho açúcar. Mas tem adoçante lá dentro...
- Não, está ótimo. Muito bom mesmo.
- Mentirosa. Tu toma sem nada – o guri, em tom discreto.

O especialista mirou o doutor Barbosa e a doutora Leontina. Ambos se afastaram um pouco, para trás da sua cadeira.
- Maicon – disse.
- Hummm...
- Você é o homem da casa. Já pensou nisso, não é? Mas falta pensar um pouco mais.

O menino ouvia, a cabeça meio baixa, os olhos levantados para o aplacador e amenizador.

- Pai é bom de ter, mas quando é bom. Não acha?

Silêncio.
Com um gesto amplo, o especialista afastou sua cadeira da mesa e abriu uma gaveta. Remexeu um pouco até encontrar o que queria. A foto de um homem jovem, bigodinho aparado e chapéu, anos 50.

Mostrou a foto rapidamente ao menino – mas não tão rápido que Maicon não pudesse observar direito.
Virou o rosto para trás, enquanto rasgava a foto, dramático, sobre a boca de uma cestinha de lixo. Mas o velho já sumira no meio da cortina floreada, arrastando os chinelos sobre o piso de tábuas.

- Tiau, Marcos! – ouviu-se a voz da doutora Leontina, que fazia hora na mesa da cozinha.

O especialista:
- Sua mãe precisa de você, Maicon. Você precisa crescer. E – quando tiver seus próprios filhos – não repetir o que o seu pai fez.

Maicon trocou o peso do corpo para o outro pé, cabeça meio baixa. Respirou fundo:
- Minha mãe... Como é que o senhor sabe que ela precisa de mim?
- Eu sei. Sou especialista.

Quando mãe e filho saíram para o dia, que começava a cair lá fora, e o barulho do trânsito intenso invadiu por um instante a sala de atendimento dos aplacativos e amenizadores, o especialista fechou a gaveta - na qual descansavam pelo menos outras dez fotos idênticas à que ele rasgara.

Levantou-se e foi recolher a contribuição dos novos pacientes, depositada no pote que descansava sobre um banquinho, na parede ao lado da porta.
Junto com o dinheiro, intocada, estava a balinha.



Leia também o conto "Aplacativos e amenizadores", de 2008:

2 comentários:

Jean Scharlau disse...

Gostei! Como o negócio aqui é sem dinheiro e sem balinha, fico grato, e espero uma hora dessas poder retribuir.

José Antônio Silva disse...

Valeu, Jean. Se te interessar saber, este conto é uma espécie de continuação de um primeiro, com o nome "Aplacativos e amenizadores", publicado aqui em 2008.
Basta ir na seção Temas e clicar no marcador Conto um Conto.
Abraço
Zé Antônio