domingo, 18 de abril de 2010

Poetando


Em agonia


José Antônio Silva


Idéias bóiam

ou flutuam

- como baloons

de histórias

em quadrinhos -

pelas ruas.


Algumas ficam presas

sob viadutos

pontes

fios elétricos

ou galhos de árvores.


Até explodirem

ou perderem todo o gás

e serem pisoteadas

em invisível agonia

sob nossa pressa

sem razão.


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Exploradores cegos


José Antônio Silva


Artistas são exploradores cegos

tateando o nada

em busca de massa sutil


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Irmã Tristeza


José Antônio Silva


És sábia

- e, reconheço, podes ser doce -

irmã Tristeza


Mas vai!

Não conseguimos

continuar respirando

por muito tempo

em tua companhia.


terça-feira, 13 de abril de 2010

Crônica MInha

Padres Pedófilos e outras bandas

José Antônio Silva

Padres pedófilos. Poderia ser apenas o nome provocativo de uma nova banda de rock (livremente inspirado na denominação do The Cure, por exemplo). Infelizmente, é muito pior que a barulheira de músicos iniciantes.
Esses padres... merecem o inferno, sem dúvida.


Acompanhados de legiões de professores, médicos, pastores, treinadores esportivos, monitores, irmãos/monges, sacerdotes de praticamente todas as demais religiões, babás e tantos outros cuidadores, com destaque especial para o acolhedor ambiente de muitas residências, envolvendo tios, padrastos, pais – e até determinadas mães.

Tudo indica que cúpula da Igreja Católica amorcegou e tentou desqualificar o abuso sexual praticado – às vezes durante anos a fio - por vários sacerdotes sobre os pequenos fiéis à seus cuidados, em especial nos abrigos e asilos religiosos.

A bem da justiça, no entanto, precisamos reafirmar que este tipo de crime – e mais, de covardia – está muito longe de ser “privilégio” da Igreja de Roma. Jesus, Buda, Maomé, Calvino e outros líderes fundadores, ao que nos consta, não imaginaram nada disso ao criarem suas igrejas (pensando bem, talvez até previssem: não há nada de novo sob o sol, com exceção do buraco ampliado na camada de ozônio).

Mantra
Não faz muito tempo, a propósito, houve certo frisson na internet com denúncias de que dois monges budistas, no caso, no Sri Lanka, foram acusados de abusar sistematicamente de 11 crianças (entre os 9 e os 12 anos). Em 2001, outro monge budista, no mesmo país, trocou a cela do mosteiro pela da penitenciária, por abuso sexual a uma menina. (Aqui, no lugar do rock, a hipnótica música oriental).

Estes fatos não renderam muito, jornalisticamente, pois se trata de uma religião e de uma região muito distantes da maioria de nós.

Enfim, nos casos, envolvendo religiosos, a atenção da mídia e da tal “opinião pública” se faz mais concentrada, pois sacerdotes estariam ferindo, digamos, duplamente as normas: além de não respeitarem o celibato com o qual se comprometeram, ainda abusavam de crianças.

Ora, o primeiro item da “acusação” (se for a de manter relação carnal com pessoa adulta, por livre vontade de ambas as partes) é questão literalmente íntima do sacerdote, com sua consciência e suas convicções. E por ela deve responder, terrenamente, só a seus superiores na hierarquia clerical.

Rock pesado
Já o abuso de crianças é que deveria e deve nos preocupar a todos, pois se trata de ato criminoso e inaceitável – sejamos sacerdotes, leigos ou ateus.
Divulgue-se tudo – pois o silêncio é o maior incentivador dos abusos.

Mas não vamos esquecer - e talvez devamos até exigir - os mesmos holofotes da mídia sobre o que se passa dentro das casas dos cidadãos respeitáveis.

Afinal, tudo indica que o maior índice de estupros e abusos sexuais de crianças e adolescentes acontece dentro dos lares, praticados por parentes próximos. E pior: muitas vezes com os demais familiares fazendo de tudo para esconder estes fatos da sociedade, seja para manter a imagem de normalidade familiar, seja por cumplicidade nos acontecimentos.

É, realmente, rock muito pesado.



sexta-feira, 9 de abril de 2010

Conto um Conto

Aplacativos e amenizadores - o garoto

José Antônio Silva

A mãe olhou de novo para a placa pintada em cinza, sobre a porta da casa antiga e mal conservada. “Aplacativos e amenizadores”. O que é isso?

Não tinha campainha.
Enfiou a cabeça pela porta entreaberta.
- Com licença...

Da semipenumbra, uma voz respondeu, grave:
- Vá entrando, amiga. Por favor, vá entrando.

Ela puxou o filho de arrasto. Onze ou doze anos. Cabelo repenicado.
- Merda, mãe!

- Podem sentar – a voz.
- Tomar no cu – o garoto.

- O senhor desculpe, sabe como é... esse menino... eu...
- Já entendi, não se preocupe.

A mulher caminhou até uma cadeira postada em frente à escrivaninha, solitária no centro da sala. Sentou. Sua mão direita garantia a presença próxima do filho. Um abajur providenciava alguma claridade, iluminando um computador em minúscula mesinha auxiliar.

- Me disseram que o senhor podia..., que vocês podiam... me ajudar. Nos ajudar... Esse menino me dá um tra...
- ...balho. Claro. E também não vai muito bem na escola.

Bateu a ponta da caneta sobre a mesa. Levantou o rosto, sério, olhos nos olhos.
- Mas não é culpa dele. Nem sua.

- O senhor acha? O senhor já tratou outros casos assim?
O homem afastou sua cadeira de rodinhas da mesa. Fez-se silêncio, por alguns instantes.
- Não se preocupe, sou especialista – a voz tranqüila e segura.

Olhou para a cortina floreada, no fundo da ampla sala. Tossiu baixinho.

- O que houve com o pai dele?

A pergunta saiu junto com quem a pronunciava, ao atravessar a cortina. Um homem velho - bigode branco, fino como um risco -, de terno antigo, sem gravata e calçando chinelos.

- Este é o meu... Barbosa, o doutor Barbosa. Ele é nosso consultor.
- Certo, certo... – ela apertou a mão do consultor. - Vocês são... aplaca, aplica, aplana... – confundia-se.
- Aplacativos e amenizadores, como está escrito em nosso... display, no lado externo do estabelecimento – respondeu o homem da mesinha. – Aplacamos e amenizamos a dor.
- Mas então. O que aconteceu com o pai do guri?
- Tomar no cu! – o garoto, agora em voz mais baixa.

Suspiro da mãe...
- Ele foi se embora. Já faz cinco anos. Diz que a vida comigo era um inferno. O Maicon nunca se conformou.
- Puta que pariu, mãe!
- Ele não era assim, sabem? Agora está revoltado desse jeito.

- As coisas acontecem pelo melhor, minha filha.
(Agora era a dona Leontina, a outra especialista, que saía da cozinha, nos fundos, trazendo um cafezinho para a cliente, outro para o especialista e uma bala para o menino). Vinha falando:
- Já pensou crescer com um pai que não gosta da casa, não gosta da gente, está com a cabeça em outro lugar? O mundo gira e as coisas se ajeitam. Tenha fé! A balinha é pra ti, Marcos.

- Maicon, porra!

- Você não pode, Barbosa! – ela criticava o outro consultor. – Tem pressão alta! – e afastava a bandeja com o café do alcance do homem idoso.
A mãe do garoto bebia seu cafezinho aguado e adoçado.

A consultora Leontina ajeitou a haste dos óculos, presa com um pequeno pedaço de esparadrapo, e olhou bem para a mulher na cadeira.

- Ficou bom? Eu sempre esqueço e ponho açúcar. Mas tem adoçante lá dentro...
- Não, está ótimo. Muito bom mesmo.
- Mentirosa. Tu toma sem nada – o guri, em tom discreto.

O especialista mirou o doutor Barbosa e a doutora Leontina. Ambos se afastaram um pouco, para trás da sua cadeira.
- Maicon – disse.
- Hummm...
- Você é o homem da casa. Já pensou nisso, não é? Mas falta pensar um pouco mais.

O menino ouvia, a cabeça meio baixa, os olhos levantados para o aplacador e amenizador.

- Pai é bom de ter, mas quando é bom. Não acha?

Silêncio.
Com um gesto amplo, o especialista afastou sua cadeira da mesa e abriu uma gaveta. Remexeu um pouco até encontrar o que queria. A foto de um homem jovem, bigodinho aparado e chapéu, anos 50.

Mostrou a foto rapidamente ao menino – mas não tão rápido que Maicon não pudesse observar direito.
Virou o rosto para trás, enquanto rasgava a foto, dramático, sobre a boca de uma cestinha de lixo. Mas o velho já sumira no meio da cortina floreada, arrastando os chinelos sobre o piso de tábuas.

- Tiau, Marcos! – ouviu-se a voz da doutora Leontina, que fazia hora na mesa da cozinha.

O especialista:
- Sua mãe precisa de você, Maicon. Você precisa crescer. E – quando tiver seus próprios filhos – não repetir o que o seu pai fez.

Maicon trocou o peso do corpo para o outro pé, cabeça meio baixa. Respirou fundo:
- Minha mãe... Como é que o senhor sabe que ela precisa de mim?
- Eu sei. Sou especialista.

Quando mãe e filho saíram para o dia, que começava a cair lá fora, e o barulho do trânsito intenso invadiu por um instante a sala de atendimento dos aplacativos e amenizadores, o especialista fechou a gaveta - na qual descansavam pelo menos outras dez fotos idênticas à que ele rasgara.

Levantou-se e foi recolher a contribuição dos novos pacientes, depositada no pote que descansava sobre um banquinho, na parede ao lado da porta.
Junto com o dinheiro, intocada, estava a balinha.



Leia também o conto "Aplacativos e amenizadores", de 2008:

sábado, 3 de abril de 2010

Livro


Sangue ruim

José Antônio Silva

“Pensava em termos de roubo. As casas eram construídas para serem arrombadas, os cidadãos deviam ser roubados, a polícia devia ser evitada e odiada, os delatores deviam ser castigados, e os ladrões deviam ser aprimorados e protegidos. Esse era o meu código, o código dos companheiros. Esse era o ar que eu respirava”.

Fala a verdade – em termos de visão de mundo e ética própria, a acima descrita tem muito mais honestidade intrínseca, dentro de seus limites, do que a maioria dos discursos que escutamos por aí. Ou não?

Trata-se de um texto do perturbador “Sangue Ruim”, livreto – curto e, em todos os sentidos, grosso – editado há alguns anos pela Conrad Editora, e que agora reli.

Não recomendável para espíritos sensíveis, o velho Coleman – escritor e ilustrador barra pesada, figura cult do underground norte-americano – relata ao seu jeito quatro biografias de foras da lei não tão famosos como Billy the Kid ou, sei lá, Al Capone.

Não entraram para a história nem para o cinema, estes seres. São o ladrão Jack Black (no retrato ao lado, especializado em assaltos à mão armada e arrombamentos, alcoólatra e viciado em ópio), aliás, o autor da declaração de princípios acima. São Bertha "Vagão de Trem" , vagabunda e andarilha dos anos 30, prostituta, ladra eventual. E dois dos mais endiabrados e lunáticos serial killers de seus respectivos tempos: Carl Panzram e Paul John Knowles.

Histórias repletas de sofrimento do início ao fim, embaladas por uma coragem suicida – muitas vezes cruel (caso todo especial do tal Panzram), mas sempre inseparáveis de infâncias levadas à base de abandono, abusos de toda a ordem, muita violência, exploração, preconceito e outras especialidades de nossa sociedade bem comportada.

O velho Coleman, no entanto, não nos priva de algum humor eventual, uma ironia aqui, um sarcasmo bem assestado ali. Mas são relatos secos e sempre na primeira pessoa verbal, assumindo a personalidade de cada um dos, digamos, depoentes.

(Em tempo: no segundo parágrafo destas mal traçadas, quando critico a “maioria dos discursos que escutamos por aí”, não me refiro aos políticos, em especial. Eles não enganam mais nem menos do que uma imensa parcela dos eleitores, na vida pessoal e nos negócios. Apenas, pagam o preço de estarem sempre na vitrine, sob grande visibilidade.)

Aparentemente feitos à machado por Coleman, lendo – e olhando – de novo estes perfis, observa-se que o resultado foi um fino estudo psicológico, em que os criminosos (às vezes bestiais) são também vítimas.

Sim, o livro é perturbador. Mas quem é que não precisa levar um sacode de vez em quando?