sábado, 13 de março de 2010

História (em quadrinhos)



O primeiro livro de Glauco


José Antônio Silva


No início dos anos 80, o país já ouvia – ainda à certa distância, é verdade – os últimos suspiros da Ditadura milica. O general Figueiredo, na Presidência de 1979 a 1985, garantia à cavalo a abertura política lenta e gradual - tanto que já tinha avisado outros setores da caverna, digo, caserna: “Quem não quiser que abra, eu prendo e arrebento!”. Jornalistas, cartunistas, intelectuais, estudantes e artistas em geral, assim como alguns políticos e muitos trabalhadores sindicalizados, iam empurrando no peito, na raça, com jeitinho ou jogo de corpo, a linha demarcatória das liberdades democráticas.


Glauco Villas Boas, o Glauco, natural do Paraná, sotaque acaipirado, era um desses jovens cartunistas que surgiam na cena paulista cheios de ironia e crítica ao regime militar, mas com sangue novo e visada diferente. Era apenas alguns anos mais novo que a geração de Chico e Paulo Caruso, Angeli, Laerte; ou, em Porto Alegre, de Edgar Vasques, Santiago, Eugênio “Corvo” Neves, o falecido Ronaldo Westerman, entre muitos outros.


Olho no comportamento


Historicamente, todos eram “filhos” ou herdeiros da geração Pasquim – Millôr, Ziraldo, Henfil, Jaguar, vocês sabem. Glauco, estreando na segunda metade dos 70, trazia um traço mais sintético e limpo; e um humor que já ousava olhar para o comportamento, os costumes sociais, a sexualidade, as drogas, a hipocrisia das relações humanas, o machismo e outras questões então pouco abordadas pelos chargistas estabelecidos, criados que foram no enfrentamento duro ao regime militar, que parecia ocupar todo seu esforço e talento.


Mas a sociedade se modificava e exigia ser refletida, pensada em sua subjetividade – e lá estava Glauco, na hora e local certos para isso. Como este sentimento era geral, outras áreas também acordavam e iam à luta, para além dos limites da censura e das dificuldades econômicas.


Edições Lira Paulistana


Uma delas era o (hoje) mítico Teatro Lira Paulistana – um porão na Rua Teodoro Sampaio (Bairro Pinheiros, São Paulo) que abriu seu palco de arena e sua precária mas entusiasmada infraestrutura para o surgimento e afirmação de Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, grupos Rumo, Premê, Língua de Trapo, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Almir Sater e tantos músicos mais, no que ficou conhecido como “Vanguarda Paulista”.


O Lira, no entanto, se humano fosse, seria um baixinho invocado e abusado, e não contente em ser teatro, produtora musical e gravadora, também virou editora (ver aí pela internet o jornal Lira Paulistana).


E foi assim que tivemos a honra – pois eu era da equipe de malucos lirenses, à época (enquanto trabalhava na Folha de S. Paulo e outros gigantes midiáticos) – de abrir a Edições Lira Paulistana com nada menos que o primeiro livro de tiras do cartunista, chamado “Minorias do Glauco”, cuja capa vocês podem ver aqui reproduzida. Assim como a página de apresentação, o expediente da editora e a contracapa, na qual – como de costume, fiel ao seu jeito gaiato – Glauquito dava uma sacaneada em seu amigo Laerte.


Personagens clássicos


Logo depois formaria/desenharia Los Três Amigos (com o citado Laerte e o indigitado Angeli), num sucesso que atravessaria duas décadas. Sem falar do desenvolvimento de seus personagens clássicos e caóticos: Geraldão, Geraldinho, Dona Marta, o Casal Neuras, Zé do Apocalipse, e outros.


Eram as minorias do Glauco, que tanto tinha uma visão aberta da sociedade e do mundo, que ousou aprofundar-se nos desafios espirituais. Até que uma alma perturbada acabou com a graça.


5 comentários:

Alexandre Brito disse...

Zé...
conheci o Glauco quando morei em Sampa, entre 86 e 89, antes de se converter ao Santo Daime.

Muito amigo do Fred Maia, meu querido compadre, volta e meia nos encontrávamos e passávamos bons momentos juntos conversando sobre mulheres, cultura, política e espiritualidade.

esse paranaense desgarrado da porra vai fazer uma falta...

grande post esse teu!

contribuo com a página oficial dele na web:

http://www2.uol.com.br/glauco

abraço.

riba disse...

Valeu Zé, estava esperando algo sobre as minorias,
Riba de castro

José Antônio Silva disse...

Valeu, Alexandre!
Grande abraço.
Zé Antônio

José Antônio Silva disse...

Oi, Riba!
Verdade, tínhamos que falar disso, que é só mais um aspecto da vibração
que o Lira promoveu, em seu tempo.
Tu, como um dos fundadores da coisa toda, sabe bem disso.
Abração!
Zé Antônio

Augusto Bier disse...

Valeu pela boa postagem, Zé! E que belo currículo esse teu junto com a Lira - o que só reforça a parte que já conheço (êpa!). O que me espanta - com ou sem Glauquito - é que a universidade ainda não trata o desenho editorial como disciplina obrigatória em seus cursos de comunicação. E, Alexandre Brito, também conheço Fred Maia, mas não avisa a polícia...