sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Crônica Minha



Brigitte, Catherine, Juliette, Fanny, Isabelle...



José Antônio Silva


Bri-gi-tte (no Bri você arranha suavemente o r e já faz o biquinho francês; no gi você segue a rota; e na sílaba final, você ignora o e e escande o t dobrado, saborosamente, com a necessária delicadeza). Assim, com a língua entre os lábios e seus nomes sedutores na boca e nos ouvidos, podemos desfrutar da sensualidade de um dos maiores e mais respeitáveis olimpos de musas da história contemporânea. Sim, o cinema francês, tal qual o futebol brasileiro com sua fábrica incontrolável de craques da bola, geração a geração, oferece novas e lindas deusas, para todo o mundo. Mas no escurinho do cinema parece que é só para você.


E Deus criou a mulher, como redescobriu em grandíssimo estilo, Roger Vadim, nos anos 50. E que mulher... (aliás, uma parada duríssima, pois como nos revelam os velhos filmes, do outro lado do Atlântico tínhamos Marilyn Monroe - para não falar das italianas, suecas, etc.). Mas fiquemos em Paris e arredores: Brigitte Bardot com seus lábios cheios, seu olhar desafiador, seus dentinhos levemente apartados, seus seios em flor e... enfim.


Ela separava os homens dos meninos, como se diz. E em sua presença, quase todos viraravam meninos! Consta em algumas memórias vivas que o nosso futuro maestro soberano - nos anos 60, um latin lover bonitão, para gringa nenhuma botar defeito - terminou ficando num fim de festa com Brigitte, na histórica passagem da deusa da sensualidade por Buzios e Rio. BB, assim era conhecida, praticamente o intimou a levá-la para casa (dele). Franco e modesto, Tom Jobim confessou muitos anos depois, numa entrevista à TV, que pesando bem as coisas considerou aquilo tudo um pouco demais para seu caminhãzinho - e despachou a musa para o hotel dela, ao nascer do sol, saindo com o rabo literalmente entre as pernas. (Menos mal para o orgulho pátrio é que o namorado titular da deusa gaulesa, à época, era o marroquino-brasileiro Bob Zagury).


Mas enquanto Brigitte cansava sua beleza, eis que outro valor alto como a Torre Eiffel se alevantava,

pelas telas afora. Sim, era a misteriosa Belle de Jour!. A loira de olhos escuros envolta em mistério e promessas, um toque perverso de mulher séria caída em tentação e pecado, Catherine Deneuve chegava para tremer os cinemas. E – mais uma vez – seu “descobridor” era o mesmo Vadim... E você sabe, no fim ela não era apenas mais um “rostinho bonito” - reve

lou-se ótima intérprete nas mãos experientes de Polansky, Truffaut, Buñuel.


Quase ao mesmo tempo, nossos ouvidos começavam a ser admoestados pelos sussurros de Jane Birkin, que garantia nos amar – moi non plus... Em dueto musical, cinematográfico e erótico com Serge Gainsbourg (o Vadim de La Birkin) nem notávamos sua pronúncia suavemente estrangeira na língua de Verlaine, pois que era discípula da Rainha – quando com certeza a Rainha, e toda a Família Real é que deveriam ser discípulas de Jane.


A luta, porém, é difícil, e temos que abrir alas para Ardant – a ardente Fanny Ardant! Confesse que você já nem estava lembrando dela, no meio deste paraíso de non, non, non... Oui! Oui! Oui! Sim, Fanny é uma grande atriz e uma linda mulher. Morenaça proprietária de um bocão que se abre em sorriso que ilumina a sala escura do cinema, olhar derretedor. Hoje, na meia idade, ainda está inteira e na ativa.


Mesmo caso daquela que por várias vezes chegou a ser apontada em pesquisas da imprensa como uma das mulheres mais lindas do mundo – a bela de lábios levemente separados e arfantes e olhos esverdeados Isabelle Adjani. Caso sério, essa francesa de pai argelino e mãe alemã, que alugou seu ar de desamparo para produções como a História de Adele H.(quando vivia a historia da filha incompreendida de Victor Hugo, glória da literatura da França). De certo modo, Isabelle repetiu a fórmula – caso real envolvendo um grande nome das artes francesas – como Camille Claudel, injustiçada amante do mestre Rodin. Nas poltronas do cinema, todos os homens queriam ampará-la, coitada.


A fila nos cinemas e na vida andava, no entanto, e eis que entra em cena, para ficar, Juliette. Binoche. Morena pálida, de olhar provocante e boca que faz biquinho francês, antes de abrir em sorriso maroto. Ousada (não, Roger Vadim já estava muito velho quando ela surgiu). Kieslowsky apostou em Juliette e se deu bem, como protagonista de Bleu, o primeiro de sua trilogia de cores. Além de vários Cesar (prêmio maior do cinema francês), sua prateleira refulge também com um Oscar hollywoodiano, entre outros regalos e reconhecimentos. Mas essa francesa que tem em sua árvore genealógica ramos que se estendem mundo afora, da Polônia ao Brasil (ah, pois é!), parece não estar nem aí. Ela é bela, talentosa e quem quiser que goste. E quem não gosta, pelo amor de Deus?


Novas gerações chegam empurrando as divas e exigindo espaço – como se uma deusa literalmente escultural, vinda da Córsega (como o baixinho Napoleón Bonaparte, 200 anos antes), precisasse exigir alguma coisa. Laetitia Casta (sim, além do mais, casta!) começou como modelo, mas sua exuberância destoava do estilo cabide, exigido pelos modistas. E foi o velho urso Gerard Depardieu que a introduziu, digamos, no cinema ao contracenarem na versão filmada de Asterix e Obelix (Depardieu, evidentemente, era o gigantesco melhor amigo de Asterix). Aos poucos, foi aparecendo em outros filmes e terminou por dobrar os joelhos da velha França: longos cabelos castanhos emoldurando olhos verdes e lábios vermelhos, carnudos como romãs (eu sempre quis escrever isso!), a deusa mediterrânea foi escolhida para servir de modelo ao busto de Marianne, um perfil feminino – sempre atualizado - que representa a República Francesa e é distribuído por todas as repartições públicas da terra do pão bengala.


Aliás, mais uma prova da precisão de nossas escolhas até aqui: antes de Laetitia (você que já foi apresentado pode chamá-la de Letícia mesmo), os bustos – ah, os bustos... -anteriores da República traziam os não inferiores perfis de BB e Catherine Deneuve.


Após o vulcão de La Casta – ainda contribuindo para o aquecimento global - quem passou a brilhar de modo talvez mais discreto mas perene, a bordo do novo cinema francês, foi a suave e charmosa Audrey Tautou. O primeiro grande sucesso mundial foi o Fabuloso Destino de Amelie Poulain, onde a morena delicada, espalhou seu discreto veneno. Já fez das suas no block buster hollywoodiano O Código Da Vinci (rodado em Paris) e agora chega, mais madura, interpretando Coco Chanel.

Nada mais francês.


Sim, sim... Rommy Schneider, Milene Demongeot, Jeanne Moreau, Emmanuelle Beart, Anne Seydoux e tantas outras musas de gerações anteriores – e posteriores - merecem ser lembradas, claro. Mas sabe o que é? Essas francesas de cinema esgotam qualquer um.


5 comentários:

Augusto Bier disse...

Bem comentado.
Agora voltei a ter ejaculação precoce.

Edgar Vasques disse...

Sem dúvida, mestre Zé. Mas o q dizer das italianas, malandro?
Edgar

José Antônio Silva disse...

Bier: ainda bem que o cinema é escuro e ninguém vai notar.

Edgar: note que no segunmdo parágrafo desta modesta crônica faço menção - obrigatória, eu diria - ao poderio das italianas.

Divirtam-se sadiamente com estas reflexões.
abraço
Zé Antônio

VELOSO disse...

MUITO BOM BLOG E TRABALHOS ESTAREI SEMPRE CAMINHANDO POR AQUI VALEU!

José Antônio Silva disse...

Obrigado, Veloso!
Apareça sempre.
abraço
Zé Antônio