terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Livro


Quando o humorista abre a janela da poesia

José Antônio Silva


Estradas paralelas em direção ao paroxismo ou ao absurdo existencial, o humor e a poesia, apesar dos pontos em comum, geralmente ficam nos respectivos trilhos. Cada um na sua, tá ligado?


Claro que há humor em todo o poeta (ainda que seja sarcasmo, ainda que seja ironia sutil – quando não é escrachamento, como proposta de desespero). Claro que há poesia nos humoristas/cartunistas; muitos cartuns (quase sempre sem palavras) são pura poesia.


E há humoristas/poetas que misturam os dois componentes na medida certa. Recorramos (recorramos? Que coisa...) ao mestre Millôr, num hai kai: “Menino chorando/ lágrimas no chão/ vai contando”.


Tá, não é para gargalhar – um humor cuidadoso e ao mesmo tempo simples, um insight sobre aspectos contraditórios, e engraçados, da natureza humana.


Generalidades à parte, eis que o cartunista Bier – famoso pelos (maus?) elementos escatológicos que recheiam seus desenhos – pede licença e sai com um livro de poemas, suaves, sensíveis...


“Será que tá se afrescalhando o vivente, depois de velho?”, poderia perguntar um gaudério, apreciador de seus cartuns bagaceiros e de suas charges políticas, num tipo de humorismo de apelo direto e popularesco, que fez sua fama e estilo. Menos: o pulso ainda pulsa e em ‘Zoofilia’ o velho sátiro se reafirma: “Já tirando a cueca/ não distingue a rã/ da perereca”.


Porém, na maior parte do seu livro “Serenata para uma janela fechada” o autor abre a janela do próprio peito. No poema batizado de ‘Sem nome’, o humorista direto aqui se transfigura em poeta lírico e curte o mergulho, a vertigem no prazer das palavras, que se procuram e se encaixam, quase que por si mesmas. Falando sobre o encontro com a musa: “Meu peito vira céu/colorido por pandorgas largadas/ ao vento norte de setembro”. Mais: “Perco-me nelas/ quando os fios arrebentam/ e a delícia do abandono/ some num zênite de desejo”. Os versos continuam.


A poesia de Bier por vezes dessacraliza o vocabulário, assim reanimando, pela milionésima vez, como deve ser, a revolução dos modernistas. Em ‘Duelo’ ele escreveu: “Da faca/ fica / o talho./ Na lâmina/ o sangue/ escreve tchau”.


Lá pelas tantas, em “Atrás do mato”, o autor faz um inventário da flora nativa – sem perder o humor, é claro: “Pé de chorão/ na capela funerária/ provocação”. Ou: “Pé de ariticum/ com galho sobre a sanga/ tchibum”.


Aliás, hai kai cai muito bem na lavra do Augusto Franke Bier escritor. Veja na pequena jóia que é ‘Apesar de tudo’: “Não entendi ainda/ o homem já pisou na lua/ e ela continua linda”.


Registre-se, em tempo, a bela e singela capa do Uberti. Para concluir, fiquemos com Guaracy Fraga, mestre humorista das frases, na apresentação do livrinho: “(Declaro) que no mesmo sistema circulatório palpitam a aorta entupida e dilatada do chargista e a sua veia poética, capilarmente disfarçada. Nelas, o fluxo oxigenante de idéias”.


E era isso.


Ah, a edição de bolso, 104 páginas, ano 2008, ficou por conta da Editora Nova Roma Livraria (Porto Alegre), (51)3013-4535.

Um comentário:

Augusto Bier disse...

Zé Antônio, fiquei comovido com os versos pinçados e os comentários a seu respeito. Nem mesmo eu lembrava deles no jeito dos cortes que fizeste. A vinculação do humorista ao poeta também foi ducaralho! Acho que já encontrei o prefaciador do meu próximo libro...