quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Crônica Minha

Um nome fantasia

José Antônio Silva


Atrasado para um compromisso profissional, atravessava com passadas rápidas o Largo Glênio Peres, no centro antigo de Porto Alegre, por volta da uma da tarde do dia 23, quando fui surpreendido por uma tradicional canção de Natal - “Noite Feliz!” - ecoando entre o burburinho urbano e humano e os belos prédios do Mercado Público e da Prefeitura.


O som partia e espalhava-se através das caixas instaladas em uma caminhonete ali estacionada, que acredito ser de uma igreja evangélica. Não importa. A música, cantada com voz forte e afinada, valorizava a letra singela. E sem saber por que exatamente – lembranças da infância, talvez? Necessidade de crer em algum poder superior para nos salvar? – me emocionei.


Senti que, a despeito da minha vontade, meus olhos eram tomados por lágrimas. E atravessei a rua movimentada, desviando de mulheres - especialmente mulheres - carregadas de sacolas de presente. Um jovem mendigo, sob as colunas de um prédio e sobre as lajes da calçada, vestindo apenas uma calça velha, ronronava de boca aberta. Em tese, era Natal para ele também, assim como para todo o mundo ocidental cristão. Mas provavelmente ele não sabia disso, e ninguém parecia considerá-lo digno de fazer parte da festa.


Ao chegar perto do prédio onde entraria, lágrimas já secas, voltei a cabeça sem saber por que e vi: um homem entregava ao mendigo dorminhoco – agora acordado e surpreso – um pacote. À distância, me pareceu um panetone. O homem, talvez 40 anos, funcionário de algum escritório das redondezas, crachá ao pescoço, apertava a mão do miserável.


Pensei: será que faria o mesmo no resto do ano? Viajei, no espírito do momento: será que só conseguiremos salvar a Terra da degradação ambiental e do superaquecimento, para não falar da injustiça social, no Natal?


Após minha reunião, conversei com um amigo que trabalha naquela rua e contei o caso do mendigo. Meu amigo me garantiu que já viu o sujeito distribuindo presentes e gestos de solidariedade por ali quase todas as semanas, o ano todo.


Papai Noel existe, sem barba branca, sem trenó nem renas - nem consumismo. E tem o poder de encarnar em muita gente, agindo nos espaços do afeto e da extrema carência, no anonimato e sem publicidade, onde os programas dos governos, por melhores que sejam, não chegam.


O Natal comercial já descartou Jesus – o motivo de toda a festa, afinal. Mas para além do consumo exacerbado, talvez Papai Noel seja só um dos nomes fantasia, um dos disfarces utilizados pelo Espírito da Solidariedade para, em desespero de causa, tentar sobreviver.

3 comentários:

Laís disse...

Bela crônica, Zé Antonio. De poeta.

abraço e feliz 2010 pra ti.

Teresa R. de Lucena disse...

Lindoooooooooooooo
emocionante
parabéns, e que tu sigas nesta letras de ternura e esperança

Neli disse...

Zé Antonio: gostei da crônica e da emoção escorrida pelos teus olhos e belo coração. Apesar do sentido do Natal ter-se perdido, penso que ele é válido como recomeço, assim como a festa de virada de ano. Quanto à oferta ao mendigo, que presenciaste, existem muitas pessoas que fazem isso. Outro dia, vi um barbeiro aposentado cortando o cabelo/barba de alguns mendigos na Pç. Quinze; levada pela emoção, fui até ele e o beijei no rosto. Atitudes assim nos fazem crer que o Mundo ainda tem jeito. Grande abraço. Neli G.