quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Crônica MInha

Bem, você sabe... não é divertido!

José Antônio Silva

Esse negócio de sair de um filme (ou parar de ler um livro) porque nos desagrada, nos incomoda... É de pensar: vigora hoje um mandamento não escrito segundo o qual só devemos fazer o que nos dá prazer imediato. Tudo tem que ser rápido, de preferência leve, e “divertido”. (Aliás, palavra que, no contexto, é um americanismo rapidamente absorvido e repetido por nós, a partir do cinema de Hollywood ou de declarações de roqueiros famosos: “Bem, você sabe... Vou tocar enquanto achar divertido”. Yeah!).


E o compromisso com sua arte, com sua vida, com a pulsão (no caso, de criar música)? Ou com a falta de outras alternativas viáveis e reais? E a responsabilidade com, digamos, filhos por criar, objetivos a alcançar ou a tentativa de contribuir com algo, por menor que seja, para que o mundo seja um pouquinho menos injusto e cruel?

Sei, é pedir demais. Afinal, no embalo consumista tudo vira descartável, a fila anda - estamos na vida a passeio.

Bem, você sabe... eu sinto muito, mas não é o que parece, e está longe de configurar um projeto sustentável.

Para elegermos “me divertir” como objetivo maior da existência – e há garotada de todas as idades repetindo este mantra – teríamos que ser monstros de egoísmo e alienação. E ainda assim nos esborracharíamos na primeira grande tragédia que interrompesse estas férias permanentes.

Voltemos ao filme ou livro abandonado. (Claro, há casos em que a obra é qualitativamente tão ruim que não há porque insistir. Não é ao que me refiro aqui).

Por vezes é bom exercitar a paciência e a perseverança, e terminar por aprender algo com o difícil filme/livro desprezado por nossa impaciência – inclusive o motivo de ter nos incomodado tanto de início. Poderemos sair dali até mesmo achando que, afinal de contas, a experiência não deixou de ser “divertida”.


5 comentários:

Edith Janete disse...

Me fizeste lembrar de um professor de literatura que dizia que deveríamos ler até a página 30 direto, a cada livro novo,só então poderíamos desistir...
Bom, já desisti de vários depois da página 30. Mas nunca irei esquecer A Montanha Mágica do Thomas Mann,mais de 800 páginas, um começo um pouco árduo e no decorrer do livro uma grande dificuldade de abandoná-lo. Demorei mais tempo nas últimas 20 páginas do que nas quase outras 800...
Vejo minha filha de 18 anos e seu interesse por mídias aceleradas, raros livros relâmpagos ou lidos aos picotes. Ainda vou vê-la se deliciar lentamente com a montanha... seja ela de Mann ou da vida.

José Antônio Silva disse...

Oi, Edith!
A verdade é que eu mesmo já abandonei livros "pedregosos". É mais fácil falar do que fazer, né? Mas a gente tenta.
Abração!
José Antônio

lau siqueira disse...

Muito bom te conhecer, mano. Foi um prazer enorme pra mim participar de um sarau com escritores da sua qualidade. Seu blog vai para os favoritos.
Há braços! Lau

José Antônio Silva disse...

O prazer de participar foi meu, Lau.
Vamos falando.
Grande abraço
Zé Antônio

Nei disse...

Acho a palavra fun a mais execrável da língua inglesa. Eles usam a tres por quatro. Tudo se refere a fun.

O filosofo Arthur Gianotti lembrou num artigo que conhecimento é estranhamento. Livro não é surf. Mas tem o problema de embocadura. Levei muito tempo até entrar em Grande Sertao, do Rosa. Quando acertei o veio, mandei ver até o final. Os Passos perdidos, do Carpentier, só consegui ler na traducão, o que é uma pena pois no espanhol é infinitamento melhor. Mas foi a maneira de eu entrar no livro e não abandoná-lo. Aliás, obra-prima total. abs.