terça-feira, 22 de setembro de 2009

Poetando


Marítimas

José Antônio Silva


Olho d’água

eu olho desta margem
alguém olha da outra
- não há engano:

nossos olhares se encontram
no horizonte que bóia
no meio do oceano



Jubartes

Baleiam no oceano

ao pé do barco
as jubartes.

Para nós
humanos
fazem arte?



Reta gaúcha

Deus por economia
apenas traçou uma reta
mar de um lado
terra de outro
sem promontório ou baía
morro nem vegetação:


jogo rápido
só areia, sol e água
- e com ela lavou as mãos!


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Crônica Minha

Tá lá o corpo estendido no chão

José Antônio Silva

“Está lá o corpo estendido no chão!” – brada o locutor esportivo, enquanto o árbitro aponta para a marca do pênalti. A frase, hoje recorrente no futebol para colorir a narração de um lance ríspido no jogo, tem sua origem num dos grandes sucessos da dupla Aldir Blanc e João Bosco nos anos 70, a música “De frente pro crime”. E é um excelente exemplo de como versos, expressões e frases cantadas da música popular brasileira saltam naturalmente da melodia para o dia a dia da língua pátria, incorporando-se não só às transmissões de rádio e TV, mas à chamadas publicitárias, textos jornalísticos e literários e, especialmente, à boa conversa fiada, no cafezinho ou em frente a um chope.


Quem é que, referindo-se a alguém mais descontraído, talvez desligado das obrigações caretas do cotidiano, nunca disse que fulano é “maluco beleza”? Maluco beleza, aliás, uma autodefinição do sempre bem lembrado Raulzito Seixas, em seu clássico do mesmo nome. Falando em autodefinição, Raul deixou outra igualmente genial: “Eu prefiro ser/ esta metamorfose ambulante”. Volta e meia alguém se sai com esta, por mais acomodado, não-apocalíptico e integrado que seja...

Por falar no Maluco Beleza, como você está? “Beleza pura”, respondem no automático boa parte dos brasileiros e brasileiras, citando sem lembrar ou saber o velho Caetano Emanuel Viana Telles Veloso, na música em que o baiano garante não se amarrar em dinheiro não, e sim em beleza pura.

Prepare seu coração
“Prepare seu coração” – lasca o apresentador de um programa de auditório, complementando: “Pras coisas que eu vou contar”. O que ele vai contar é que a próxima atração será este ou aquele cantor, ou que haverá uma superpromoção com prêmios incríveis para o público. E sempre há uma propaganda mandando as pessoas, digo, o consumidor, “preparar seu coração”. Na verdade – você já sacou o que ele quer dizer – você deve preparar é o bolso para comprar isto ou aquilo. Mas quando Geraldo Vandré e Theo de Barros ganharam o Festival da MPB da Record, em 1966, com Jair Rodrigues interpretando a canção “Disparada”, o que eles queriam de fato era preparar o coração e o cérebro da platéia atenta para sua mensagem antiditadura. Classicão!


E você, garota, ao sair de férias depois de um ano daqueles, e – se tudo correr bem na estrada, o tempo estiver firme e a casa de praia em boas condições, entre outras questões metafísicas –; você vai responder o quê ao namorado que ficou na cidade e ligou pra saber? Pelo celular, retocando o protetor solar UVA e olhando displicentemente o desfile de surfistas na areia e nas ondas, você confessa que está “livre, leve e solta”. Provavelmente desconhece que está citando no original a composição do pequeno e sorridente Nelsinho Motta, eternizada pelas Frenéticas em algum momento nebuloso entre as décadas de 70 e 80 do século XX.

Na mesma praia, no fim de semana, enquanto espera você voltar do banho, o namoradão murmura sem melodia para a morena de biquíni, que passa a caminho do mar, numa praia bem longe de Ipanema: “Coisa mais linda, mais cheia de graça...”. Vinícius de Moraes e Tom, entornando uma nas nuvens, fazem um brinde: sua obra é mesmo eterna.

domingo, 13 de setembro de 2009

Convidado Especial

Como um picolé no freezer

Confira a gelada – com graduação siberiana, apesar de ser nos Estados Unidos - em que entrou o jornalista gaúcho Glênio Paiva, no que seria uma agradável noite de confraternização em sua temporada nos States...

Glênio Paiva

Quem já vivenciou uma experiência gelada, como se estivesse fechado em um freezer? Pois eu já me senti um picolé.

Foi em uma noite de Janeiro de 1996, em Madison, Wisconsin, centro-norte dos Estados Unidos.

Era um jantar na casa de um casal brasileiro,do estado de Pernambuco, que morava em um local chamado Eagle Hights, onde estudantes do mundo inteiro moravam, durante o tempo em que faziam doutorado na Universidade de Wisconsin..

Naquele dia, até o final da tarde havia nevado forte, com temperatura de cinco a seis graus abaixo de zero (centígrados). Por volta das 7 horas da noite, eu, minha mulher e os dois filhos fomos para o jantar. A nevasca havia parado, mas nas ruas ainda se via muita neve acumulada, dificultando um pouco a dirigibilidade do carro. Passamos por campos completamente brancos, que mais pareciam enormes bolos cobertos de glacê.

Chegando na casa dos amigos, logo tiramos os pesados casacos de neve, luvas e as botas apropriadas para a ocasião. É comum em casa de americano se tirar o sapato ao entrar. Normalmente as casas têm uma espessa forração, o que as torna muito confortáveis no inverno.

A janta demorou bastante, uma vez que se esperou mais dois casais chegarem. A anfitriã e cozinheira, Danielle, era expert em culinária do nordeste. Ela fez um prato típico de seu Estado, chamado arrumadinho, que nada mais é do que carne de sol assada e desfiada, purê de mandioca (macaxeira), feijão de corda (fradinho), um molho vinagrete e farofa. E que, como diz o nome, é tudo muito bem arrumadinho no prato. Tudo regado a um bom vinho chileno, que em Madison saía muito em conta. O jantar estava um pitéu. “Bom de mais da conta”, como dizia meu amigo Jorge.

Nos esquecemos do tempo falando sobre futebol e assuntos da universidade, e escutando a mais pura música brasileira e, com isso, não vimos o relógio disparar. Quando nos demos conta, o relógio já marcava duas horas da madrugada.

“Vamos embora, que amanhã tenho que escrever um artigo” disse minha esposa. Como as crianças estavam dormindo, fui buscar o carro, estacionado um pouco longe à hora em que chegamos, pois não havia uma vaga nas proximidades.

Coloquei as botas e o casaco e saí. Ao passar a porta do corredor do prédio, senti o ar como se fosse uma parede. Quase não dava para respirar de tão frio que estava. Continuei caminhando e fechando o casaco. Me dei conta que havia esquecido as luvas dentro do carro. Apressei o passo e desapareci na escuridão. Não se escutava absolutamente nada, a não ser minhas botas batendo na neve, um som semelhante ao de se caminhar na areia fina de uma praia. Dois ou três minutos se passaram e não notei que minhas mãos, expostas ao frio, começavam a ficar dormentes.

Cheguei no carro e tentei abri-lo, mas a porta estava colada. Lembrei-me então que metal a baixíssimas temperaturas cola, como acontece em um freezer. Forcei novamente e nada. Meu nariz e minhas orelhas também estavam ficando insensíveis. “Está frio demais!!” Pensei eu em voz alta. Não havia sentido nada igual. Comecei a ficar preocupado. Tentava abrir a porta e ela continuava colada. Ela não estava trancada à chave. Já tinha aprendido que no inverno de Wisconsin não se devia chavear o carro, pois corria-se o risco da porta não abrir. Depois de várias tentativas, tive um lampejo e decidi tentar abrir o lado do carona. Outras tentativas e nada. Já estava quase desistindo e já meio apavorado com minhas mãos. Eu já tinha lido de pessoas terem perdido dedos por congelamento. De repente, num puxão mais forte consegui abrir a porta da direita. Entrei no carro, que estava literalmente um congelador, coloquei a chave na ignição. Dei a partida. O arranque girou pesado uma, duas, três vezes, até que escutei o ronco do motor. Forcei por dentro a porta da esquerda, que se abriu. Liguei a calefação no máximo, deixei o carro funcionando e saí em disparada em direção à porta do prédio. Ao chegar naquele apartamento, que mais parecia um útero materno de tão aconchegante, percebi que os outros me olharam assustados. Eu estava com o rosto completamente vermelho e as mãos, dois cubos de gelo. Coloquei-as dentro da pia com água bem quente até sentir o sangue voltar a fluir forte nas artérias e veias.

Depois de refeito, voltei para pegar o carro, desta vez bem equipado com luvas e o casaco totalmente fechado. Ao entrar no Nissan Sentra, este já estava bem aquecido. Manobrei e fui até a porta de entrada onde Neuza e crianças me aguardavam bem encasacados.

Fomos devagar para casa. Eu sentia o carro duro, como se não tivesse óleo nos amortecedores. Ao chegarmos em nosso apartamento, liguei a TV para ver o homem do tempo. Estava marcando inacreditáveis 43 graus abaixo de zero. No canto superior esquerdo da tela da TV havia um alerta em amarelo berrante dizendo para não sair de casa em hipótese alguma e que as aulas, assim como outras atividades, estavam suspensas devido à baixíssima temperatura. Fomos para cama e nos cobrimos com um edredon fino, uma vez que a calefação estava ligada no máximo, o que tornava o ambiente interno muito gostoso. Fizemos um sono só. No outro dia de manhã bem cedo, por volta das 6h30min, levantei para ver o que o homem do tempo dizia. Permanecia uma faixa em amarelo dizendo que as aulas estavam suspensas, até mesmo na universidade e que as pessoas deveriam permanecer em casa devido às baixíssimas temperaturas. Só deveriam sair se houvesse alguma urgência. As crianças vibraram e nós quatro acabamos ficando em casa durante toda a manhã.

Esta experiência eu já contei para inúmeros amigos, mas todos ficam desconfiados quando falo que enfrentei temperatura extremamente baixa, na casa dos 40 graus negativos. Ninguém acredita, mas juro que foi a pura verdade...

Glênio Paiva

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Crônica Minha


Lendo o jornal


José Antônio Silva

Índice agrário – O ministro da Agricultura, ao contrário do ministro do Desenvolvimento Agrário, não assinou a portaria que atualiza os índices de produtividade do campo, estagnados desde os anos 70, argumentando entre outras coisas que o momento atual não é adequado.
Bom, então só resta perguntar à Sociedade Rural Brasileira, à UDR, à Farsul e à bancada ruralista, em Brasília, qual dos séculos futuros eles consideram o mais adequado para tocar no assunto. E fica resolvido por enquanto!

Crack, nem pensar – A RBS lançou há algum tempo a campanha de combate ao vício e ao tráfico do crack no Rio Grande do Sul.
A campanha é meritória e oportuna, mas por falar em vício, ela tem um, de origem: se os especialistas e a população seguirem a ordem de “não pensar” no crack e no problema que ele representa, será que vão encontrar uma solução?

Record e Globo trocam acusações pela mídia – As redes de comunicação Record e Globo se acusam mutuamente, em horários e páginas nobres, de manipularem informações e terem origem espúria. A Record lembra que a Globo não só floresceu à sombra do regime militar, a quem apoiou, como no nascedouro recebeu dinheiro estrangeiro, do grupo Time-Life, para crescer e multiplicar-se ao arrepio da lei. A Globo mostra a exploração do suado dinheiro da população para alimentar a vida luxuosa de Edir Macedo e seus pastores da Igreja Universal, através do dízimo.
É um caso raro na história brasileira em que megagrupos de comunicação comunicam toda a verdade – sobre o concorrente, claro. Ainda bem, para ambos, que a maioria da população brasileira não está interessada neste produto. Are baba!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Crônica Minha

História de pai

José Antônio Silva



Cansado. Você chega em casa cansado, e o filho pequeno está acordado e pede uma história – pai, me conta uma história, só uma, pai, tá? – e você conta, nem sabe como mas conta, inventando um pouco, outro tanto repetindo velhos contos de fadas, e deita-se ao lado do guri na cama estreita,

e quando você sente o filho puxando seu braço percebe que ou a história não está mais fazendo sentido, mesmo sendo uma história em que tudo pode acontecer, ou você simplesmente ficou mudo na parte mais interessante, quando João, um rapaz muito pobre mas cheio de sorte e coragem, escalava o muro do Palácio e caiu lá do alto – tchabum!

e você encontra-se no nível do chão, estatelado e olhando seu filho de baixo para cima, acordando de vez e até meio de mau humor e diz que agora chega e não vai mais contar história nenhuma e o guri chora e pede e chora e pede por favor para você, pai, contar a história,

e você tenta tirar a sua mão do meio das mãos dele; aliás, firmemente presa entre os dedinhos do pirralho, e você tenta mas ele aperta com mais força e puxa sua mão para mais perto do peito, embora os olhos continuem cerrados você vê que sua boca se abre e ele diz: não sai, pai, continua a história, não sai

e você prossegue, enfrentando uma fileira de dificuldades, todas mais ou menos parecidas, é verdade, mas isso não facilita muito as coisas, e você vê que há outras personagens, inclusive reais, aparentemente, invadindo seu sonho, digo história,e tudo está confuso e você conta para o João que a princesa espera por ele depois da Praça da Alfândega, atrás do banco, e ela é linda, é demais, e sorri para o João, que é você,

mas aí um duende esquisito com crachá de cobrador lhe sacode o braço e diz que é o fim da linha – assim, filosoficamente – e você se desculpa, desce do ônibus e vai encarar a floresta escura e outras histórias.



(Texto publicado originalmente no Jornal do Comércio, Porto Alegre, 16 de abril de 1999)