sexta-feira, 10 de julho de 2009

Palpitando






A canção morreu, mas escuta essa...

José Antônio Silva

Desde alguns anos, vem rolando um papo-cabeça de que a canção morreu. Vocês sabem, teria ocorrido o sepultamento (sem marcha fúnebre nem fita amarela) daquele tipo de som popular mas sofisticado – música e letra em alto nível de harmonia e qualidade – que fez a glória de Chico, Caetano, Paulinho da Viola e tantos outros por aqui. Ou como Bob Dylan, Lennon & McCartney, para não falar em Cole Porter e demais pioneiros, lá fora, entre milhares de nomes reconhecidos e consagrados. Antes de mais nada, a afirmação situa-se no terreno da provocação, do exagero – e assim deve ser entendida. Há inúmeros outros cancionistas criando belas obras, de velhos e novos sambistas a Los Hermanos, ou de Tom Waits a Amy Winnehouse.


Mas como em todo o exagero, a frase contém algo de verdade. Fala-se aqui de algo que, na verdade, espraia-se em grande diversidade de gêneros: samba, bossa-nova, MPB, pop, balada, forró, tango, blues, choro, rock, as canções italianas, a chanson francesa, o reggae, etc. Enfim, me refiro a esta espécie de música que pode ser facilmente cantada, e que existe em perfeita integração entre os elementos melódicos e verbais – e que neste 2009 já não desfruta da unanimidade que teve durante a maior parte do século XX. Século, aliás, onde grande parte dos gêneros citados neste parágrafo atingiram excelência de formato e maturidade.

Melodia virou “base”
As inovações tecnológicas e o som eletrônico levaram a audição contemporânea e sua fruição para outros lados, e não é demais lembrar o papel crescentemente influente do rap – com a fala sincopada ocupando quase por completo o espectro sonoro -, restando um arremedo de melodia como mera “base”. Existem sim artistas do hip hop testando essas barreiras naturais, com alguns resultados interessantes na mescla com o jazz, o funk, o pop, o samba, o reggae, mas a palavra mais discursada do que entoada é a atual rainha do palco. E tudo indica que assim seguirá ainda por bom tempo. Ou não – como diria precavidamente o já lembrado Caetano.


A sensibilidade de hoje, e aí digo eu, está mais insensível. Melodias derramadas e declarações de amor, mesmo com sofisticação (ou por isso mesmo) perderam espaço no mood contemporâneo: como em todas as artes, atualmente é restrito o espaço para o romantismo, o lirismo, para tudo que seja considerado ingênuo.

Ao mesmo tempo, na música popular do Brasil, popular mesmo, impera o batidão (funk carioca), ou o axé baiano, com letras e rimas pornô ou apenas primárias e paupérrimas. No entanto, o ritmo é forte e bota favelados e classe média urbana para dançar como quem transa.



Nem a chamada “música brega” (bolerões, guarânias, sertanejas, ie-ie-iês), que fez fama e fortuna de Waldick Sorianos, Reginaldos Rossis, Perlas, Odaires Josés e Sidneis Magals junto ao público mais casca grossa, hoje não tem muita vez. Esta prateleira é agora ocupada por sertanejos-country e pagodeiros “românticos”, que – verdade seja dita e cantada – mantêm seu publico . Já existe até o subgênero sertanejo universitário...

Envelhecendo com os mestres
No entanto, é preciso admitir que a canção já conheceu dias e noites melhores. Há muitas bandas de rock brasileiras que têm seus fãs, com baladinhas emo que pegam no ouvido, mas que o status da canção se perdeu – talvez acompanhando o envelhecimento da geração que a elevou ao nível mais alto no Brasil, nos anos 60 e 70 – disto não parece haver muita dúvida.


Um exemplo foi dado pelo eterno Roberto Carlos, que em seu especial de fim de ano na Globo, poucos anos atrás, bombou sua apresentação com a presença do MC Leozinho, ao lado de quem o Rei (da canção) entoou constrangidamente um refrão bobo ao ritmo do batidão: “Se ela dança/ eu danço/ falei pro DJ...” Queria se mostrar contemporâneo, o velho Roberto, esquecendo-se que já é eterno para os brasileiros.

Relativisando culturalmente
Voltemos ao tema principal. A canção está em baixa, e creio que isto se deve também a certos aspectos do relativismo cultural, para quem o refinamento de linguagem – um dos seus pontos altos – também foi para a linha de desmontagem: seria reflexo de um modelo tradicional, imposto de cima para baixo, europeu, machista, ocidental/judaico/cristão, racionalista e que deveria seguir para o paredão do esquecimento, em nome da justiça histórica e de outras correções políticas.


A “indústria cultural”? Sim, tem muito a ver com isso. Sob o signo do pragmatismo mais desvairado, às voltas com a pirataria, com a música baixada de graça da internet e outros problemas, abandonou quase por completo qualquer proposta artística que não vise sucesso imediato e massivo.


Enquanto isso, nas artes “não populares”, ocorre fenômeno inverso: amplia-se cada vez mais o fosso entre alta e baixa cultura. Hoje praticamente já não se admite uma obra (no setor que antes atendia por artes plásticas, ou na literatura) que “não reflita sobre si mesma”. A poesia, por exemplo, é cada vez mais rarefeita e auto-referente, quase um ensaio a respeito de um nó cego. A bilhões de quilômetros de distância, portanto, do alcance e das expectativas do leitor médio.


Ah, sim, a canção. A canção sobrevive, claro, e sobreviverá. Do mesmo modo que o cinema não matou o teatro, a televisão não matou o cinema, a fotografia não matou a pintura etc, etc (mas esperemos para ler as páginas policiais dos jornais do futuro).


Em todo caso, ao contrário de seus tempos de glória, a canção parece ser, cada vez mais, um petisco para pequenas platéias.


Os 20 melhores do Brasil – e outros tão bons quanto!

De quebra, coloco aqui os 20 maiores criadores de canções da MPB (no sentido amplo e irrestrito) na minha modesta opinião. (Alguns, para o fim que aqui me interessa, funcionam preferentemente como duplas, e assim vão). É evidente que meus critérios passam por algumas unanimidades, mas também por gostos e idiossincrasias pessoais, influenciadas por sua vez por minha história e trajetória de vida. Lá vão, correndo todos os riscos, mas sem ordem de importância:



1.Caetano Veloso, 2. Chico Buarque, 3. Gilberto Gil, 4. Paulinho da Viola, 5. Cartola, 6. Tom Jobim & Vinícius de Moraes, 7. Lupicínio Rodrigues, 8. Noel Rosa, 9. Adoniram Barbosa, 10. Luis Melodia, 11. João Bosco & Aldir Blanc, 12. Roberto & Erasmo Carlos, 13. Paulo Vanzolini, 14. Luiz Gonzaga & Humberto Teixeira, 15. Dorival Caimmy, 16. Braguinha, 17. Jorge Mautner, 18. Cazuza, 19. Rita Lee & Roberto de Carvalho, 20. Nei Lisboa. Importante: Esta lista passa a ter 22 nomes, pois por mistérios insondáveis do inconsciente esqueci de dois dos artistas que mais admiro na música brasileira: Jorge Ben Jor e Raulzito Seixas.

Quanta injustiça
Quando elaborei a relação, sabia que estava cometendo um caminhão de injustiças e esquecimentos. Para tentar minorar esta situação, elenco aqui vários outros artistas com méritos de sobra para figurar na relação acima (ou não), mas que residem igualmente no meu coração musical. Olha só:

Marina Lima, Lobão, Renato Russo, Djavan, Vitor Ramil, Seu Jorge, Jards Macalé, Herivelto Martins, Alceu Valença, Billy Blanco, Jackson do Pandeiro, Belchior, Milton Nascimento & Fernando Brant, Gonzaguinha, Menescal & Boscoli, Marcos & Paulo Sérgio Valle, Itamar Assumpção, Martinho da Vila, Adriana Calcanhoto, Nelson Cavaquinho & Guilherme de Britto, João do Valle, Sá, Rodrix & Guarabira, Maísa, Almir Sater, Zeca Baleiro, Renato Teixeira, Lenine, Edu Lobo, Guilherme Arantes, Carlinhos Hartlieb, Luiz Tatit, Capinam, Sérgio Sampaio, Nando Reis, Arrigo, Walter Franco, Beto Guedes, Lô Borges, Lulu Santos, Paulinho Moska, Arnaldo Antunes... Chega!


E chega mesmo, porque o que tem de compositor bom neste país não cabe nem na realidade virtual. E isso que eu não falei dos cantores e cantoras, não citei as grandes bandas, os instrumentistas geniais, etc...


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