quarta-feira, 8 de julho de 2009

Crônica Minha

Jornal novo lá em cima!

José Antônio Silva

Encontraram-se num final de tarde desses, numa mesa de bar – parece que os garçons tiveram que encostar mais uma, voando, para caberem todos.

O Raul Quevedo, magro, pálido e firme – mas sem perder a ternura jamais – começou a destacar logo a resistência heróica de Cuba, e naturalmente o papo convergiu para o golpe militar em Honduras. “A direita não percebe que o tempo das quarteladas em nosso continente já passou”, pregava o velho guerreiro.

Mais ponderado, um quase nada de ironia no sotaque fronteiriço, o Osmar Trindade – recém chegado e tomando pé naquele chão meio fofo – pigarreou:
- Mas, chê, eles não vão desistir nunca. Lá em Moçambique....

O Dedé Ferlauto, que rascunhava um novo verso no guardanapo alvíssimo, citou um outro jornalista, mais antigo, que traçava um quindim com um café preto, numa mesinha isolada: “Eles passarão, eu passarinho...”

Àquelas alturas - e que alturas - apareceu por ali um baita de um sujeito com bigodão ruivo e hirsuto, ainda segurando um espeto com uma costela atravessada. Um garçom se adiantou:
- Pode deixar que a gente assa, seu Betão.

Como não podia deixar de ser, criticaram muito o fim do diploma, mas a conversa agarrou fundamento quando o Trindade, após desentupir o mate, tirou do bolso o projeto de um novo jornal.

Nesse momento, lá de longe, escutou-se um gaguejar, mas plenamente compreensível:
- Ma...mas vai ser co...co...cooperativado? – queria saber o Antoninho Gonzalez.

Infelizmente não escutei a resposta – mas ainda ouvi que o Dedé declamava um novo poema, enquanto o Betão Andreatta soprava sua harmônica.
A trilha sonora me pareceu celestial, antes de cair da cama.




Esclarecimento - A crônica acima diz respeito à morte recente de várias jornalistas gaúchos referenciais para a categoria, a partir do falecimento de Osmar Trindade, um dos fundadores e editor do histórico Coojornal, na semana passada.

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