domingo, 15 de fevereiro de 2009

Crônica MInha (12)

O ruído do mundo


José Antônio Silva


Como o ruído insistente de um velho ventilador de teto, do qual chegamos a esquecer por alguns momentos, entretidos com o trabalho ou a conversa, há o barulho contínuo, inescapável, porém mais sutil, do mundo. Em qualquer lugar, em qualquer tempo.


O barulho do mundo reflete, de algum modo impreciso, os mecanismos, as roldanas e correias que movem o planeta e com ele seus habitantes, animais, vegetais, minerais, os gases e os ventos.

Em todos há átomos em transformação, há mudanças de forma, e mesmo após a morte tudo se modifica: do trabalho aplicado dos vermes à depuração e redução de tudo às essências minerais e, como se diz, à volta ao pó.


São processos secretos e silenciosos. No entanto, com a sensibilidade despertada, há quem capte o ruído dos passos das formigas na relva, do amadurecimento de uma goiaba no pé – para não falar da explosão cósmica da fruta, ao esborrachar-se sobre o solo. Uma espécie de pratos soando, e solando, numa pianíssima orquestra de câmara.


Existe a respiração de todos nós (e o resfolegar de um cavalo, por exemplo, é a lembrança amplificada desta verdade). Existe o vento – mesmo sem ventania. Uma folha que roça em outra, no galho da árvore.


O ruído do mundo – da incomensurável máquina do mundo, que jamais é desligada – não se restringe aos ritmos da natureza. Os produtos e resultados do engenho humano (carros, aviões, eletrodomésticos, o movimento misterioso do concreto a se expandir sobre a viga de ferro) trouxeram, nestes nossos tempos, novos tons e timbres ao que era uma sinfonia orgânica.


Cada cidade tem o seu barulho típico (como tem seu cheiro, ou seu fedor característico; como tem sua luminosidade). Possui seu próprio barulho, modulado aqui e ali por características locais: maior ou menos população; alta produção industrial ou não; o tipo predominante de atividade econômica; mais ou menos veículos; se é cercada ou não por plantações; se conta com aeroporto; se é atravessada por uma linha férrea ou rodovia; se é banhada pelo mar, por um lago ou grande rio...


Poderá ter um jardim zoológico e seu coro desconexo de mugidos, berros, pios, rugidos, cacarejos, grunhidos, uivos, ganidos e etcetera. Uma síntese interessante mas aleatória, dividida por “ambientes” e grades, do mundo animal, com espécies que jamais conviveriam – ou sequer se escutariam – se nada disso houvesse.


Seja no Saara (do vento Simum...) ou na floresta da Amazônia, haverá sempre de algum modo o burburinho sonoro da natureza – o que também pode ser considerado uma forma de silêncio. Sim, o ruído do mundo traduzia a harmonia natural, cósmica.


Hoje, o ruído tonitruante do mundo (como uma TV lançando seu rumor, seu zumbido vazio, na madrugada, frente a um homem adormecido num sofá, abraçado a uma garrafa); hoje toda a profusão de ruídos, e o crescente aumento dos decibéis planeta afora, traduzem a desarmonia humana.


Satélites artificiais chocam-se e perdem peças na órbita da Terra e no espaço sideral. Quem escuta?

A música do mundo – pastoral quebrada por ápices de som e fúria – agora incorpora às harmonias da natureza os barulhos dissonantes da ação incansável e incontível dos homens.


Este é o novo ruído que nos cerca, e que só eventualmente percebemos – como o estrondo do velho ventilador soltando-se e voando sobre as nossas cabeças.

Um comentário:

Anônimo disse...

Fugindo do rugido e guinchos desesperados da minha rua eu tampo os zuvidos com bolinhas de cera alemã. Passo então a agüentar meus nativos sons internos... Difícil escolha.
(Bj. anônimo e anódino da Lilita)