quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Poetando (7)

Mergulho

José Antônio Silva



Um dia eu sonhei
ou melhor
uma noite eu sonhei
ou pior
uma noite tive um pesadelo

em que mergulhava fundo
no oceano das palavras perdidas
dos versos abandonados
da poesia esquecida.

Lá estavam
perfeitos alexandrinos
e sonetos de pé quebrado
hai cais que caíram
surrealismos
já sem pé nem cabeça.

Um olho de Camões
despedaçadas flores do mal
ilíadas e odisséias
de gregos naufragados.

Versos livres
que se afogaram
ao fugirem dos grilhões
e obras concretas
empilhadas por ali.

Monumentos à ars poetica
semi-enterrados na areia
frases soltas e preciosas
roubadas por invisíveis correntes.

A sabedoria do mundo
abandonada entre peixes
sonolentos e analfas.

Pior que tudo
- percebi a tempo -
era o olhar
dos tubarões
assassinos de poetas.

Disfarcei
assobiei em bolhas
e saí nadando de ré.

Para reforçar minha pose
dei um chute dramático
numa das ruínas existenciais
da mais elevada poesia.

Fui eficiente no papel
de banhista
que superestimara o fôlego.

Só o soltei – o fôlego –
fora d’água
e caminhei para a terra seca
mais que seca
esturricada.

Pisei no asfalto quente
e na calçada
andava para a minha casa
mas um menino de pés descalços
me falou:
- Tio, não tem um versinho aí?

Procurei nos bolsos
e achei um papel seco e amassado.
Estava escrito:
“Amar é...alta
amar é.....baixa”.

Entreguei aquilo mesmo à ele
e segui boiando entre lindos outdoors
pela cidade aos pedaços.
Até que acordei.




Porto Alegre/1993

Um comentário:

Fraga disse...

Belezura, Zé Antonio.