sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Conto um Conto (4)

Tudo tem seu dia

José Antônio Silva

Tudo tem o seu dia. A frase podia ser pronunciada com ênfase. “Tudo tem o seu dia!”. Ou como mera constatação: “É, mas tudo tem o seu dia...” . As reticências finais indicavam, claro, que não se conseguiria fugir desta determinação derradeira do destino, independente do que se quisesse ou fizesse.

Atenção: o enunciado acima não era empregado como uma metáfora para a infalibilidade da morte. Não. Meu amigo Boca repetia seu bordão como desfecho de qualquer discussão sobre os fatos cotidianos, neste largo espaço que costuma ocorrer entre o nascimento e o fim.

Pela certeza com que proferia sua sentença – quase uma condenação – todos haveríamos de ser repetentes, cornos, demitidos de emprego, erraríamos pênalti em partida decisiva, apanharíamos de um fracote, perderíamos o dinheiro da passagem... Era só esperar: tudo tem seu dia.

Vez em quando algum mal humorado da turma questionava, com a força dos fatos, a lógica do Boca:
- O meu tio se formou engenheiro e nunca rodou, nem no primário, nem no ginásio, nem no científico. E nem na faculdade!
- Mas ele tá fazendo pós-graduação?
- Bom, não. Acho que não...
- Então espera ele fazer, e depois a gente conversa. E tem mais. Vai dizer que ele nunca se deu mal no cursinho de datilografia? E no de inglês?
- Pode ser... não tinha lembrado disso.

O roldão dos fatos da vida de algum modo parecia confirmar a filosofia bocal. Curioso é que, pelo que se depreendia de suas frases lacônicas, este nosso destino tão inexorável não reservava lugar a nenhum evento realmente positivo.
Claro, coisas boas e inesperadas aconteciam vida afora - e nem ele se atrevia a contestar esta verdade evidente. Sua percepção, no entanto, era a de que os fados negativos são mais poderosos que os demais, e que a sorte de um fatalmente acarretará a desgraça de outrem. Não bastava. Mesmo quem receber uma bênção em algum momento de sua trajetória, por certo irá pagar caro por ela nos anos vindouros.

Boca balançava a cabeça, demonstrando genuíno dó de seus inocentes contemporâneos.
Gênios são incompreendidos. E ele tinha consciência de que descobrira uma das leis inexoráveis da existência.

Equilibrar a balança? “Nem vem com essa, a Justiça é cega”, ele recordava, dando o debate por encerrado.

Baile de 15 anos da Gisela. Baile, baile, não era. Digamos, uma reunião dançante um pouco mais caprichada, no salão do clube, para os amigos e colegas dela – nós. Funcionava quase como uma despedida: na virada do ano, que estava próxima, a família se mudaria para o Rio. A festa, apesar dos pais da menina não serem muito adeptos de grandes eventos sociais, serviria não só para festejar o aniversário, mas para que seus anos naquela cidade não passassem em brancas nuvens.

Mas estava escrito que iria chover sobre a tese do Boca – talvez até mesmo a submergisse.

Benemeritamente, nossa anfitriã e aniversariante, bela ao natural – e ainda mais esplêndida no vestido verde que combinava com o olhar do mesmo tom, em sua morenice - fazia questão de dançar ao menos uma música com cada um dos espinhudos membros da turma.

E não é que o Paulinho Pouca Coisa, baixinho e mirrado, como indicava o apelido sapecado em seu lombo pela maldade adolescente, teve mais, bem mais que sua única vez, como democraticamente decretara antes a Gisela?

Renato, junto com os demais Blues Caps, se esganiçava, afinado, na eletrola. O romantismo preenchia todos os espaços do salão, os hormônios borbulhavam e saiam pelas orelhas dos pares. “Feche os óoolhos e sintaaa um beeeeijinho agooora, de alguéeeem que não vive sem vocêeee...”, e Gisela dançava – juntinho! – com o Pouca Coisa.

Suspiramos. Logo seria a vez do próximo garoto – de acordo com o número recebido no início da festa, à porta do salão. Mas, para surpresa geral, o próximo ainda estava distante! Talvez nem houvesse próximo naquela reunião. Não com a Gisela, ao menos.

Pois, ao contrário de seu próprio planejamento, ela já enganchara com o mesmo Paulinho uma outra canção – “O meu primeiro amoooor, que eu tanto quis, enfiiiiimmm, chegou pra mimmm, iiiim...”. Pouca Coisa ali, movendo-se em uníssono, digamos, com a Gi, o braço magrinho todo enrolado na cinturinha da nossa deusa. E ela, víamos!, bailava nas nuvens.

Estava acontecendo: o aspecto positivo, tão menosprezado pelo Boca, da lei natural que ele identificara, se fazia presente. Encostado ao balcão da copa, o pensador mirava o outro lado.

Pela primeira vez nos apercebemos: Paulinho dançava muito. Não era pouca coisa. E Gisela parecia até ter esquecido o Paçoca, ex e até então único namorado dela, que soubéssemos. Paçoca nutria claras esperanças de que os melhores momentos do aniversário e da despedida seriam vividos em seus braços de remador esforçado e zagueiro temido.

Pouca Coisa era apenas o terceiro da lista: haveria pelo menos mais uns dez no aguardo, papelzinho na mão ou no bolso do paletó grande ou pequeno demais. Certo que muitos já dançavam com as demais garotas, amigas e colegas.

Outros, como sempre, escoravam a parede ou se esparramavam nas cadeiras, fazendo render o mais possível um refrigerante ou, os mais ousados, uma cerveja ou cuba libre comprada em parceria. O pé, claro, sempre marcando o ritmo. Estes, vamos reconhecer, dificilmente venceriam o medo e arriscariam exibir sua falta de jeito – especialmente na dança “agarradinha”, apesar do ensaio prévio com alguma irmã, em casa.

Quando soaram os acordes iniciais de “Meu bem não me quer”, Paçoca explodiu. Largou o copo de cerveja na beira na mesa, nervosamente, e ao movimento de levantar-se, o copo de vidro, tipo americano, espatifou-se nas tábuas compridas e enceradas do salão de baile. Vi que o líquido dourado banhou o sapatinho de salto de Gi. Ela, no entanto, certamente não percebeu nada disso.

“Briguei só pra ver se elaaaa, gostava um pouquinho de mim...”, confessava Renato. Nosso zagueirão sopesou a situação e decidiu que já era demais: aquela música estava falando dele! Dele e dela, Gi! A sua Gisela! Há coisa de um mês tinham rompido, depois de uma bobeada feia do rapaz, que andou arrastando a asa para a Martinha, só para fazer ciúmes à Gisela. Martinha contou tudinho à amiga. Nem sabia, o Paçoca, como tinha sido convidado para esta despedida. Agora estava entendendo.

Tinha que reconhecer: ele era péssimo dançarino, enquanto Paulinho Pouca Coisa revelava-se um pé-de-valsa!. E ainda haveria a valsa dos 15 anos! Mas isso não ia ficar assim!

Não iria mesmo: ao avançar resoluto para a pista de dança – um lance mais rebaixada que o restante do piso – deslizara na lâmina da própria cerveja derramada e com uma meia-bicicleta involuntária caíra de costas ao solo. “Pior que o encontrão que eu levei daquele centro-avante no jogo de ontem”, lembrou com a rapidez do raio, enquanto na seqüência do lance atropelava dois ou três casais que agora, na parte calma da música, embalavam-se, rostinhos colados.
O pai de Gi, que nunca mostrara grande apreço pelo namorado da filha, não perdoou a confusão:
“Este rapaz está bêbado! Eu não vou admitir!”.
O síndico do salão, junto com o segurança, ajudou Paçoca a levantar. Espanaram suas costas e... sentiam muito, mas ele teria que se retirar.

A maioria de nós, a arraia miúda da esquina, não lamentou muito, não de verdade. Claro que Paçoca tinha seus seguidores, mas não observei nenhum deles largando suas parceiras na pista para acompanhar o líder. Os demais, eu incluído, apenas olhamos a saída de cena de um cara que apreciava usar sua própria e bruta força para decidir em seu favor, dentro ou fora de campo.

Ele saiu com dignidade, tentando manter a cabeça ereta, escoltado pelo segurança, enquanto observávamos a cena sem expressar qualquer juízo de valor.

No outro extremo do salão, agora lotado, Gisele e Paulinho Pouca Coisa, esquecidos de tudo, dançavam “A primeira láaagrima, a primeira láaagrima...”

Pensei numa palavra que lera em algum romance obrigatório na aula de português: “Enlevados”. Era assim que estavam, ainda que, como eu, também não soubessem precisamente o que significava a expressão. Mas isso não tinha importância nenhuma.

E o Boca?
Além de pensador, acredito que o Boca possuía também poderes extra-sensoriais. Ao me virar para localizá-lo, levantou o copo de cerveja em minha direção, postado em uma das mais mesas mais afastadas da pista, ao lado da loura Martinha. Estava esperando meu gesto:
- Tudo tem seu dia – juro que ouvi sua voz dizendo isso, mesmo vendo que ele não tinha aberto a boca. E completava, mudo:
- Hoje foi o dia do Paçoca! E quando a Gisela viajar, vai ser a vez do Pouca Coisa.

Aceitei. Não dava para ganhar do Boca nessa questão.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Conto um Conto (3)

Petúnia

José Antônio Silva


- Petúnia? Você disse Petúnia?
- É, este é o meu nome.
- E você quer falar com quem... Petúnia? (seu cérebro buscava na memória algum rastro desse nome, algo vago, relacionado à infância, talvez).
- Com você.
- Comigo? Mas você sabe quem está falando, quem eu sou?
- Ué! Você é o Gonzalez, não?
- Sou, sou o Gonzalez. Mas o que você precisa, exatamente ? (a voz feminina ao celular soava doce, mas não doce a ponto de causar enjôo; havia ali uma nota grave, uma leve rouquidão...)
- Gonzaaales! Gonzalez, você continua aí?
- Sim, sim, sim! Desculpe, é... Como eu posso te ajudar?
- Pois é...
- Eu vendo casas, apartamentos, terrenos. Corretor imobiliário, sabe como é.
- Sei... Gonzalez (a voz agora um tantinho mais baixa, íntima)... a gente não pode ter essa conversa ao vivo? (um minúsculo silêncio). Só eu e você?...
- Claro! Claro, senhorita...
- Me chame de Petúnia.
- Pois não! Claro, Petúnia. Quando ficaria bom para você?
- Quando e onde? Quem sabe amanhã, às 18 horas, no Café Marron. Conhece?
- Sei, sei onde fica. No Centro. Amanhã às 18... Ok, combinado, então.
- Tiau, Gonzalez. Nos vemos lá, hein....
- Eu...

Ela já havia desligado.

Petúnia... Um nome de flor. Mas que tipo de flor? Comum não era, como rosa, margarida, girassol, cravo, lírio – também, isso era o máximo de flores e nomes de flores de que conseguia lembrar e, mais ou menos, identificar.

Como seria uma petúnia? Aliás, não era o nome de alguma antiga personagem infantil de quadrinhos, da TV?

“Como será a Petúnia – a minha Petúnia?...” – flagrou-se pensando, ao longo do dia, em meio ao trabalho.

Grandes flores roxas - era isso, em síntese, o que indicava o dicionário. Roxa? Roxa, a cor, a ele lembrava velório: seria uma flor de defunto?

E o defunto seria ele! – acordou de madrugada com aquele pensamento batendo no cérebro, como patas de cavalo nos paralelepípedos. Uma carruagem negra carregava um caixão. E ele, Gonzalez, mandava que o cocheiro parasse a marcha.
Sabia que se dirigiam ao cemitério – mas, ao mesmo tempo, era ele o passageiro que jazia deitado na traseira do veículo fúnebre.
O cocheiro se voltava, à sua ordem: tinha uma capa escura com o forro roxo, assim como sua cartola. E era uma cocheira! Petúnia!
Uma mulher morena, com pintura carregada e um sorriso fatal...
Ficou sem voz.

Acordou assustado. Meu Deus! Que suadouro!
A mulher – sua mulher há oito anos, a Belzinha – ressonava ao lado, tranqüila.

Coitada da Belzinha! O coração de Gonzalez tomou-se de amor, remorso, culpa – um jorro de sentimentos confusos, amontoados uns sobre os outros, com o que sua mão moveu-se automaticamente e acariciou os cabelos dourados e encaracolados de Belzinha.
Virou o rosto no travesseiro e já não pode retornar ao sono: havia uma carruagem negra, uma cocheira do inferno e uma cova reservada a ele – à ele, Gonzalez! Nem 40 anos tinha! Enfim, reservada, esperando por ele, no fundo do inconsciente.

Foi um dia difícil. Estava aéreo – até os colegas notaram. “Você viu o passarinho verde?” – perguntou a gordinha da contabilidade, que sempre puxava assunto com ele.
Ao que tudo indicava, vira uma ave roxa.

Lavou o rosto e estapeou-se no banheiro: “Mas que barbaridade! Você nem viu a cara dessa mulher e está tomado desse jeito? O que é isso! Você é um homem adulto, experiente, pode lidar com esse tipo de situação... E nem sabe direito o que quer esta tal de Petúnia. Se é que esse é o nome dela, mesmo! Pode ser só um assunto profissional. Aliás, só pode ser, pois não lembro de conhecer ninguém com este nome!”.

Confortado pela racionalização da situação, voltou às atividades rotineiras com menos ansiedade.

Porém, à medida que a tarde deslizava para o fim, crescia nele o nervosismo, a expectativa, a angústia – fosse lá o nome que tinha aquela sensação que aos poucos o ia dominando.

Nem sempre é roxa (ou “púrpura” como informava o Google), a petúnia. Também podia se apresentar nas cores vermelha, azul, rosa, laranja, salmão e branca. Muitas vezes a petúnia colorida – originária da América do Sul, e cujo nome significa precisamente “flor vermelha”, na língua tupi – era debruada em branco ou mesmo raiada, das pontas ao pistilo, por riscos brancos.
Primeiro, por qualquer motivo infantil, Gonzalez gostou de saber que a petúnia talvez não fosse roxa. Logo caiu em si: “Mas o que está acontecendo comigo? Parece que estou drogado!”
Parecia mesmo.

Deu um jeito de sair do escritório uns 15 minutos antes e ficou à espera na porta da farmácia - do outro lado da rua, mas defronte ao logotipo em que brilhava, em néon, o nome do Café. Café Marron. Não, não há petúnia marron, já sabia. Teria perfume, a petúnia?
Cinco para as seis, quatro, três, dois, um, seis em ponto! Ela ainda não havia chegado.
“Que bobagem, as mulheres sempre gostam de se atrasar. Faz parte do seu jogo. Até nos casamentos é assim, lembra-se?” – conversava animadamente consigo mesmo, quase podia ouvir a sonoridade de sua voz.

Procurou um cigarro no bolso – lembrou-se que já não fumava há cinco anos.

Dez minutos se passaram.
Resoluto, atravessou a rua e entrou no Café. Com exceção de duas sexagenárias que conversavam, animadas, em frente a um bule de chá e tortas estraçalhadas nos pratos, o local não tinha qualquer cliente.
Petúnia estava um pouco atrasada, mas nada de mais. Olhou para a rua, através da ampla vitrine.
- Sim?...
Virou-se rapidamente, um sorriso no rosto afogueado. Mas não era a esperada, e sim a jovem atendente, com um sotaque da colônia. Uma moça loira, as mãos vermelhas e sardas sobre o nariz largo.
- O que o senhor vai querer?
Tomou um café expresso. Tomou uma garrafinha de água mineral – sem gás, como Belzinha sempre recomendava. Tomou outro café. Por fim, aceitou um uísque duplo.
Saiu às 19h45, quando o estabelecimento começava a fechar as portas.

Deixou o carro no estacionamento do prédio, e abria a porta do elevador quando soou o celular.
- Gonzalez... Sinto muito, muito mesmo Gonzalez. Mas não pude ir ao teu encontro. Tive um... um pequeno problema...
- Bom... realmente... eu te esperei até fechar o café...
- Até esfriar o café? – respondeu a mulher, em tom de brincadeira.
- Pode-se dizer que sim. Que bom que você está achando graça...
- Desculpe, desculpe mesmo, querido. Digo, meu caro Gonzalez. Você me perdoa? Podemos nos ver amanhã?
Silêncio. Gonzalez respirou fundo. Estava em dúvida. Será que esta mulher o estava fazendo de palhaço? O que ela estava pensando! Mas... melhor relaxar. Quem sabe?
- Humm, acho que sim. Talvez. Pode ser.
- Eu quero muito falar com você, te ver. Marcamos no mesmo lugar, à mesma hora? Não esquece. Não me esquece...

Tudo combinado, o homem entrou no elevador. Estaria completando oito anos de casado dentro de um mês. Em nome do amor, do compromisso, do voto de fidelidade (e talvez também do temor de vir a ser descoberto) nunca traíra a esposa – e olha que um bom punhado de mulheres, algumas lindas, praticamente se oferecera a ele neste meio tempo. Não que fosse um galã. Normal, até meio barrigudo e com umas entradas que só avançavam... Mas sou simpático, atencioso, quase sempre tenho bom humor – são qualidades que muitas mulheres valorizam... Agora, sei lá... Estou mexido com o aparecimento – por enquanto, um aparecimento apenas sonoro - dessa Petúnia.
Lembrou: a Petúnia da infância era uma porquinha simpática, namorada do Gaguinho, da Turma do Pernalonga da TV.
Desconfiava que a Petúnia com quem estava se envolvendo – estava? – não seria uma porquinha inofensiva. Talvez uma loba...

No trabalho, voltou a contar as horas, os minutos. Estava distraído, e ao mesmo tempo meio agitado. Excitado. A gordinha da contabilidade – essa sim, uma porquinha perfeita – olhou para ele no corredor: “Noooossa! O que é que você tem, homem?”

Seguiu em frente pela rua. Mais uma vez chegava perto do Café Marron antes da hora combinada. Postou-se à porta da farmácia próxima. Não queria ser surpreendido. Tentara confirmar ligando para o número de Petúnia – mas o celular dela continuava desligado.
Bobagem, é paranóia minha desconfiar. Quando faltavam cinco minutos para às 18 horas, entrou no café.

Por volta das 16 horas, ele nem imaginava, soara o telefone em sua casa.
A mulher queria falar com Gonzalez.
- Ele não está – disse Belzinha, com uma vassoura na outra mão. – Quem quer falar com ele?
- É Petúnia. Diga a seu patrão que nosso encontro... desta tarde, no Café Marron, está confirmado, para as 18h, sem falta.
- Quê? O que você disse?
Mas a ligação já fora cortada.

Às seis e quinze da tarde, Gonzalez e Isabel – não, ele que não a chamasse nunca mais de “Belzinha”! – irromperam, abruptamente, da porta envidraçada do Marron para a calçada. A mulher gesticulava e se podia escutar alguns fragmentos de frases. E, pelo menos por uma vez, soou pela rua a expressão “traidor”. O homem ao lado de Isabel parecia ter mirrado, diminuído de tamanho, e de vez em quando juntava as duas mãos – como quem vai orar –, tentando fazer com que sua mulher parasse e o escutasse. Tudo em vão. Ela seguia decidida a mudar de vida, pela rua afora, com ele em seus calcanhares, um cão rejeitado.
Ao dobrar a esquina, o trotar de um cavalo puxando uma carroça fez explodir em sua mente a mensagem do sonho – a carruagem fúnebre em que, agora, seguia o seu casamento.
Uma gargalhada fendeu a tarde naquele instante, mas o casal que marchava para uma temporada no inferno sequer escutou.
A gerente da farmácia moveu sua cadeira de rodas, da janela até a mesa de trabalho. Secou as lágrimas que ainda escorriam e ajeitou os óculos de lentes grossas. Aprumou-se e interfonou para uma funcionária do balcão, na parte térrea do prédio.
- Marisa.
- Senhora?
- Veja o cadastro daquele moço alto que deixou um cheque pré-datado, no início desta tarde. Um que estava com a mulher.
- Sei. Ah, está bem aqui. É o seu João Alves Damiani.
- Damiani... Está bem. Me passa o número do telefone dele.
- Certo, é pra já dona Petúnia.



Nov/2008

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Poetando (5)

Cada dia

José Antônio Silva

Cada dia
é uma cópia
de outro e outro e outro
de bilhões de outros dias
se é que houve um
inaugural

e cada dia
é uma cópia exata
até na infinitude
das pequenas e grandes variações
que um dia comporta
antes de mergulhar
no amanhã.

E apesar disso
cada dia
- cada idêntico dia
parido pelo sol -
é um novo novíssimo
irmão caçula de tantos
que o antecederam.

Na memória da natureza
cada dia a todos contém
- imensuravelmente velho seria
houvesse contagem
numa ficha cósmica.

Cada menina manhã
nos engana
- e não
não nos engana:
todos somos manhãs
tardes
e anoitecemos.


2003

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Conto um Conto (2)

Aplacativos e amenizadores

José Antônio Silva



Comprou e aplainou uma tábua de polegada, onde escreveu em letra de forma, cinza sobre branco: “Aplacativos e amenizadores”. Instalou-a sobre a porta da casa antiga.

Na penumbra da sala, janelões cerrados por cortinas pesadas, ajeitou um abajur na ponta da escrivaninha. Ao lado, em mesa auxiliar, um velho monitor de computador e seu teclado, recolhidos do lixo.

Estava pronto – e o primeiro cliente chegou.

- Com licença, senhor...
- Pode entrar, meu amigo. Sente-se.

O rapaz puxou a cadeira e instalou-se na ponta. “Eu li aplicativos? O senhor trabalha com aplicativos de informática?” – e lançou um olhar ao equipamento que jazia na mesa de canto, protegido pela penumbra.

- Aplacativos.
- Como?
- Aplacativos e amenizadores.
- Não entendo... – a voz do jovem tremeu um pouco.
- Eu sei do que o senhor precisa. Algo que aplaque e amenize a dor.
- Dor? Eu... não estou... (mexia-se na cadeira, perturbado).
- Aplacamos a dor e amenizamos a dor. Por que o senhor está sofrendo? – e acrescentou em tom profissional, seguro: - Sou especialista, pode falar.
- Bom... é que... (o rapaz começou a chorar)... nossa vida está um inferno! Ela já não me ama, eu acho (as lágrimas escorriam pelo rosto vermelho). Ela se queixa de tédio. Diz que quer paixão. Mas eu a amo!
- Calma.
- Já não sei o que fazer, doutor. Estou desesperado... Já não acho mais graça em nada... Até acho que ela está interessada em outro sujeito...

Afastando a cortida floreada ao fundo da sala escura, veio direto da cozinha um homem velho, de pijama listrado e chinelos.

O especialista apresentou:

- Este ... este é o meu... este é o Barbosa, o doutor Barbosa, nosso consultor.

O rapaz limpou as lágrimas com a mão esquerda, fungou e estendeu a outra. Fungou de novo:

- Muito prazer, doutor Barbosa.
- Isso é bobagem. Eu ouvi tudo, por acaso. Não vale a pena essa choradeira. Tu és um guri ainda, tá em tempo. Vai por mim! – recomendou o homem idoso.

A equipe se completava: a esposa de Barbosa chegou, arrastando os pés, agasalhados em pantufas com um padrão quadriculado. Nas mãos trazia uma bandeja esmaltada com a gravura de um buquê de flores, onde chacoalhavam duas xícaras de vidro transparente, com um cafezinho igualmente aguado.

Ofereceu ao sofredor:

-Açúcar ou adoçante? Esqueci, já passei com o açúcar... Não faz mal, né, meu filho?

O rapaz pegou ligeiro sua xícara e bebeu de um gole.

- Está ótimo, está ótimo.

A xícara destinada ao especialista foi depositada ao lado de seu cotovelo, à mesa. O idoso estendeu a mão...

- Você não pode, Barbosa! – disse a velha ao marido. – Não incomoda!

O especialista tossiu.

- Mas fale, fale, disse ao jovem.
- Bom – respondeu em tom baixo o homem que sofria pela ruína do amor – eu não sei, só sei que dói, dói... Eu não vejo saída.
- Rapaz do céu! – disse a senhora, ajeitando no rosto os óculos, que até então pendiam de uma correntinha ao pescoço. Uma das hastes mantinha-se no lugar com o auxílio de um pedaço de esparadrapo.
- Esta é a doutora Leontina, da nossa equipe – ouviu-se a voz do especialista.
- Meu filho – continuou Leontina, o olhar fixo no jovem – aí na rua tem mulher de sobra precisando, carentes – sabe carentes? – e você é um rapaz bonito, sofrendo desse jeito. Não tem cabimento!

Utilizando a melhor técnica, o especialista apenas voltou os olhos aos dois auxiliares aplacativos e amenizadores, que pediram licença e voltaram através da mesma cortina farfalhante, deslizando com as chinelas pelas velhas tábuas enceradas.
Voltou-se para o paciente:

- Eu concordo com o diagnóstico da minha equipe. O senhor sofreu um trauma afetivo-relacional, de intensidade alta, porém de curta duração. Vai ficar bom – percebo que o pior já passou. A solução está encaminhada e agora vai depender muito do senhor. Não da sua mulher. Digo: da sua ex-mulher.
- “Ex-mulher”, doutor? – a voz do rapaz saiu fraca, desafinada. Mas já não chorava.
- Como lhe disse.

Levantou-se, o homem da escrivaninha, e ergueu uma ponta da cortina de renda branca, amarelecida pelo tempo – aconteceu um súbito jato de luz na treva.

- Perceba: o sol voltou a brilhar lá fora. É o fluxo da vida que nos convoca.

O moço ficou em silêncio por um momento. Aprumou-se. Tentou um sorriso. Sorriu:

- Aplacativos e amenizadores, não é?
- Exatamente. Precisamente, senhor.

Sério, o jovem ergueu-se, enfiando a mão no bolso direito das calças: Quanto...?

O especialista apontou um pequeno pote no alto de uma floreira, ao lado da porta.
- Pode depositar ali a sua contribuição. E em caso de necessidade ou recaída, volte sempre. Conte com a nossa equipe.
Apertaram-se as mãos.

Já ao longe, na calçada banhada de sol, o rapaz ainda escutou a voz do especialista:
- O próximo, por favor!


Outubro/2008