quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Poetando (4)

Caçado e caçador

José Antônio Silva


Aos dez ou onze anos
cacei minha primeira gazela
- ou fui caçado
igual
por ela.

Tomei gosto
gosto de sangue
na mata
na trilha
no mangue.

Raro puxei o gatilho
apreciava a presa
viva e distante
à disposição
para a minha mesa.

E assim fui
de quando em quando
abatendo perdizes perdidas
eventuais
pouca carne
poucas vidas.

Nem sempre senhor:
errava o tiro e a flecha
aqui e ali
e matava sozinho
a própria dor.

Até que apareceu peça grande
cerquei campo
fui chegando
forte contra o vento:
hoje eu janto.

Ali me regalei
muito
e muito mais
até que a carne perdeu gosto
secou
ou me salgou demais.

Subi montes
de solidão gelada
e daquele posto
observava minúscula
a caça nos campos
ou no alto céu
- e virava o rosto.

Só ajustei a mira
ao voltar à planície
esturricada
e receber o tiro
doce tiro do olhar
da corsa esperada.

Negaceou
como quem vai
mas mirava em mim
as pupilas negras
e era desafio:
acertei em pleno
no alvo perfeito
- e em tempo de cio.

Agora
ainda viva
ela dança e escava
em busca de ar
corre e retorna
em círculo:
do que escapar?


É pouca a munição
e ela resfolega
fúria e instinto.
Mata e morro:
um daqui
já não sai vivo.



Setembro/2008