quarta-feira, 4 de junho de 2008

Crônica Minha (2)

Veja bem! Com certeza!

Há expressões que deviam ser banidas por um tempo do vernáculo nosso de cada dia. Vocês sabem: "Com certeza", "Veja bem".
Já há uns 15 ou 20 anos estas pragas idiomáticas instalaram-se no cotidiano brasileiro. Reconheça-se que são úteis. Cada qual na sua função, claro.
"Com certeza" é mais aplicada em entrevistas de TV, e vem à mente e à boca automaticamente, carregada de genuína vontade de agradar. Mas muitas vezes esta aparente salvação se mostra uma armadilha.
Repórter:
- Estamos aqui em Juazeiro das Cabritas, no agreste paraibano. Vamos conversar com dona Maria Severina Xique-Xique dos Santos. Tudo bem, dona Maria Severina?
- Com certeza! Graças a Deus.
- Dona Maria, é verdade que a senhora tem 36 filhos, cada um de um cabra, digo, de um pai diferente?
- Com certeza! Êpa!! Êpa!! Ô seu repórti desavergonhadio, fio de uma mula! Eu sô é mulé de respetio!

O mesmo automatismo verbal já derrubou a imagem de muito engravatado.
Brasília, Congresso Nacional, horário nobre.
Repórter:
- Deputado, há muitos comentários nos corredores e gabinetes sobre o seu envolvimento no escândalo...
- Com certeza! Êpa!! Êpa!! Data venia! Sou parlamentar há 32 anos, tenho compromisso com minhas bases, minha familia, e não admito aleivosias e insinuações, etc, etc, etc!

É, o comcertezismo mostra-se muitas vezes uma prática arriscada.
Já o vejabenismo, como se sabe, cumpre outro papel: dar tempo para o questionado elaborar uma resposta adequada. Mais frequentemente, para enrolar o prezado ouvinte.

Utilizado em entrevistas a imprensa e debates públicos e questionamentos de modo geral.
Repórter:
- Afinal, deputado, o seu nome consta ou não na fita que gravou o recebimento de propina?
Deputado (respira fundo, passam-se intermináveis três segundos):
- Rummm... Veja bem! Eu ainda não tive acesso etc, etc. Mas considero prematuro, na vigência do pleno estado de direito, etc, etc, meus direitos constitucionais, etc, etc, etc.

Porém, alguns dispensam tudo isso.
Repórter:
- Deputado Sérgio Moraes, o sr. responde acusações na Justiça ainda do tempo em que era prefeito. Como se sente ao assumir o Conselho de Ética da Câmara?
- Processo na Justiça é que nem cachorro pulguento. Qualquer prefeito, se não tem, teve!

Veja bem, caro internauta: com certeza!

2 comentários:

Barbara disse...

seu blog vai ser um sucesso! com certeza! hehehe beijão Zé

Luiz disse...

Deliciosas crônicas para futuros e prazerosos encontros... "com certeza"
Mas querido amigo, uma outra que deve ser lembrada é "em verdade" ainda mais que nós sabemos que de verdade tem muito pouco. Sucesso.
Pinheiro