sábado, 21 de junho de 2008

Conto um Conto (1)

Fumaça negra sobre o deserto

José Antônio Silva


- Frank, à sua esquerda! Pegue aquele maldito comedor de quibe! Vem se aproximando!
Ratatatá
- Peguei! Peguei ele, Joe! Thanks! Te devo esta.
- Vamos ver se ele está morto mesmo. Com esses orientais hipócritas nunca se sabe.
- Cuidado, Joe! Vamos dar mais um tiro para garantir.
Ratatatá
- Vira ele com a bota, Joe.
- .....
- É uma velha, Frank.
- Mas o que é isso na mão dela? Um explosivo? Pode ser uma mulher-bomba!
- Não, é uma tigela. Vazia.
- Acho que ela veio pedir comida, Frank. Ou água.
- Ei, ela não está bem morta ainda!
- Ela está tentando dizer algo, Joe. Pode ser uma informação útil. Chame o cabo Shamir. Ele é filho de palestinos, conhece essa língua.
- Mas a velha está morrendo. Vem logo, Shamir!
O cabo, pele morena e grande nariz adunco, aproxima-se correndo e ajoelha-se junto à velha.
Ela o olha, como se não entendesse – um irmão árabe nas tropas americanas? Balbucia frases incompreensíveis para os dois americanos próximos.
Aperta a mão de Shamir, com dedos de unhas rachadas e agora sujas de sangue, e garante que Allá é Grande e Misericordioso e haverá de perdoá-lo.
- Então, Shamir? O que ela disse? Revelou alguma coisa importante?
- Sim, diz o palestino, os olhos deixando o rosto da velha morta, mirando o chão crestado e pedregoso, passando sem se deter pelos rostos avermelhados de Joe e Frank e perdendo-se na fumaça negra que encobre o sol do deserto.
- Ela revelou que vocês – digo, nós... – devem voltar para casa. Disse que é errado invadir a terra dos outros para roubar, roubar petróleo.
- Ela disse isso? – duvida Frank.
- Disse, Frank. E que Allá castiga os ladrões.
- Ladrões, é? Essa é boa... E o que ela vai fazer agora? Cortar nossa mão?
Shamir já aponta seu fuzil para os companheiros de farda e começa a pressionar o gatilho.
- Mais ou menos isso, Frank.


Há cinco anos, a 20 de março de 2003, forças dos EUA (e da Inglaterra) invadiam o Iraque. Este conto foi escrito em abril daquele ano.

2 comentários:

tomás rech disse...

Num momento em que inúmeras tensões emergem na geopolítica nmundial, temos sim um grande "predador" disfarçado de super-homem... caçando petróleo para seu sustento.
Próximo round já está marcado... EUA X China, em terras africanas (Sudão, Nigéria, Angola...).. ricos pobres...
Fuiii
abração

Sidnei Schneider disse...

Muito bom, Zé. Abraço